Junho 25, 2009

Primeiro capítulo de Conflito



Para quem ainda não desatou a correr em direcção à livraria mais próxima, aqui fica um aperitivo: o primeiro capítulo completo de Conflito!


Queremos saber o que vos encanta nesta primeira cena. Ou o que vos surpreende, intriga, assusta. Elena e Damon, o primeiro confronto… Será óbvio?



 

 

 

 

? Damon!

Um vento gelado fustigou os cabelos de Elena contra o seu rosto, puxando-lhe a camisola fina. Folhas de carvalho amontoavam-se entre as fileiras de lápides de granito, e as árvores agitavam os ramos freneticamente uns contra os outros. Elena tinha as mãos geladas, os lábios e as faces entumecidos, mas manteve-se directamente de frente para o vento uivante, gritando-lhe:

? Damon!

Aquele tempo era uma exibição do seu Poder, destinada a afugentá-la. Não funcionaria. A ideia desse mesmo Poder virado contra Stefan despertava dentro dela uma fúria abrasadora que ardia em oposição ao vento. Se Damon tivesse feito alguma coisa a Stefan, se Damon o tivesse magoado?

? Maldito sejas, responde-me! ? gritou aos carvalhos que ladeavam o cemitério.

Uma folha seca de carvalho que parecia uma mão morena murcha avançou aos saltinhos até junto do seu pé, mas não houve resposta. Lá no alto, o céu era cinzento como cristal, cinzento como as lápides que a rodeavam. Elena sentiu que a ira e a frustração lhe ardiam na garganta e deixou descair os ombros. Enganara-se. Afinal Damon não estava ali; estava sozinha com o vento que uivava.

Virou-se? e lançou uma exclamação sufocada.

Estava mesmo atrás dela, tão perto que as suas roupas lhe tocaram quando se virou. Àquela distância, deveria ter percebido a presença de outro ser humano ali parado, deveria ter notado o calor do seu corpo ou tê-lo ouvido. Mas Damon, obviamente, não era humano.

Recuou dois passos antes de conseguir controlar-se. Todos os instintos que tinham permanecido em silêncio enquanto gritava à violência do vento suplicavam-lhe agora que fugisse.

Cerrou os punhos.

? Onde está Stefan?

Uma linha surgiu por entre as sobrancelhas escuras de Damon.

? Qual Stefan?

Elena adiantou-se e esbofeteou-o.

Não pensara antes de o fazer, e depois mal pôde acreditar que o fizera. Mas foi uma bofetada potente e seca, dada com toda a força do seu corpo, e torceu o rosto de Damon para um lado. A mão ardia-lhe. Ficou ali quieta, tentando acalmar a respiração, e observou-o atentamente.

Estava vestido como quando o vira pela primeira vez, de preto. Botas pretas rasas, jeans pretos, camisola preta e blusão de cabedal. E parecia-se com Stefan. Não compreendia como não reparara nisso antes. Tinha os mesmos cabelos escuros, a mesma tez pálida, o mesmo fascínio inquietante. Mas os cabelos dele eram lisos, e não ondulados, os olhos eram negros como a meia-noite e a boca era cruel.

Voltou a cabeça lentamente para olhar para ela, e Elena viu a face que esbofeteara enrubescer.

? Não me mintas ? disse com voz agitada. ? Sei quem és. Sei o que és. Mataste o senhor Tanner ontem à noite. E agora Stefan desapareceu.

? A sério?

? Sabes que sim!

Damon sorriu e a seguir o sorriso apagou-se instantaneamente.

? Estou a avisar-te: se lhe fizeste algum mal?

? Então, o quê? ? retorquiu ele. ? O que farás, Elena? O que podes fazer contra mim?

Elena ficou calada. Pela primeira vez, reparou que o vento amainara. O dia tornara-se sepulcralmente silencioso em redor de ambos, como se estivessem imóveis no centro de algum grande círculo de poder. Era como se tudo, o céu plúmbeo, os carvalhos e as faias violáceas, o próprio chão, estivesse ligado a ele, como se absorvesse Poder de tudo aquilo. Permanecia parado com a cabeça ligeiramente para trás e os olhos insondáveis e cheios de brilhos estranhos.

? Não sei ? murmurou a jovem ?, mas hei-de encontrar algo. Acredita em mim.

Ele riu de repente, e o coração de Elena deu um salto e começou a bater com força. Meu Deus, era bonito. Bem-parecido era uma palavra demasiado pobre e cinzentona. Como de costume, a gargalhada apenas durou um instante, mas até mesmo quando os seus lábios se serenaram deixou-lhe um vestígio nos olhos.

? Acredito ? respondeu, descontraindo enquanto passeava o olhar pelo cemitério.

Depois virou o rosto para ela e estendeu-lhe uma mão.

? És demasiado boa para o meu irmão ? disse com toda a tranquilidade.

Elena pensou em afastar a mão dele com um safanão, mas não queria voltar a tocar-lhe.

? Diz-me onde está.

? Mais tarde, talvez? por um preço.

Retirou a mão, no preciso momento em que Elena se apercebia de que trazia nela um anel como o de Stefan: de prata e lápis-lazúli. Lembra-te disso, pensou com ferocidade. É importante.

? O meu irmão ? continuou ele ? é um estúpido. Acha que por seres parecida com Katherine és fraca e deixas-te influenciar facilmente. Mas engana-se. Pude perceber a tua ira desde o outro lado da cidade. Percebo-a agora, uma luz branca como o sol do deserto. Tens força, Elena, mesmo tal como és. Mas poderias ser muito mais forte?

Ela olhou-o fixamente, sem compreender, sem gostar da mudança de assunto.

? Não sei do que estás a falar. E o que é que isso tem a ver com Stefan?

? Falo de Poder, Elena.

De repente colocou-se muito perto dela, com os olhos fixos nos da jovem e a voz baixa e insistente.

? Experimentaste tudo, e nada te satisfez. És a rapariga que tem tudo, mas sempre houve algo que esteve fora do teu alcance, algo de que necessitas desesperadamente e não podes ter. É isso que te estou a oferecer. Poder. Vida eterna. E sensações que jamais tiveste.

Então Elena compreendeu, e a cólera subiu-lhe pela garganta. Sentiu uma asfixiante sensação de horror e repulsa.

? Não.

? Porque não? ? sussurrou ele. ? Porque não prová-lo, Elena? Sê sincera. Não há uma parte de ti que o deseja?

Os olhos escuros do jovem estavam cheios de um ardor e intensidade que a mantinham paralisada, incapaz de desviar o olhar.

? Posso despertar dentro de ti coisas que permaneceram adormecidas durante toda a tua vida. És suficientemente forte para viver na escuridão e orgulhares-te disso. Podes converter-te numa rainha das sombras. Porque não tomas esse Poder, Elena? Deixa que te ajude a tomá-lo.

? Não ? disse ela, afastando violentamente os olhos dos dele. Não olharia para ele, não lhe permitiria que lhe fizesse isso. Não lhe permitiria que a fizesse esquecer? que a fizesse esquecer?

? É o segredo supremo, Elena ? insistiu ele, e a voz era tão acariciante como as pontas dos dedos que roçavam a sua garganta. ? Serás como nunca foste antes.

Havia algo terrivelmente importante que ela devia recordar. Damon usava Poder para fazer com que o esquecesse, mas não lhe permitiria que a fizesse esquecer?

? E estaremos juntos, tu e eu.

As pontas dos dedos frias acariciaram-lhe a garganta, deslizando para debaixo da camisola.

? Só nós os dois, para sempre.

Sentiu uma repentina pontada de dor quando os dedos de Damon roçaram duas feridas diminutas na carne do seu pescoço, e a mente aclarou-se-lhe.

Fazê-la esquecer? Stefan.

Era isso que ele queria expulsar da sua mente. A lembrança de Stefan, dos seus olhos verdes e do seu sorriso, que sempre tinha tristeza por detrás. Mas já nada poderia arrancar Stefan dos seus pensamentos, não depois do que tinham partilhado. Afastou-se de Damon, pondo de lado aquelas pontas dos dedos frias, e olhou-o directamente na cara.

? Já encontrei o que quero ? disse com brutalidade. ? E com quem quero estar para sempre.

Os olhos de Damon encheram-se de escuridão em forma de uma cólera fria que varreu o ar entre ambos. Ao olhar para aqueles olhos, surgiu na mente de Elena a imagem de uma cobra a ponto de atacar?

? Não sejas tão estúpida como o meu irmão ? disse ele. ? Ou terei de te tratar da mesma maneira.

Agora sim, estava assustada. Não podia evitá-lo, não com o frio a derramar-se dentro de si, gelando-lhe os ossos. Voltava a levantar-se o vento, os ramos agitavam-se.

? Diz-me onde está, Damon.

? Neste momento? Não sei. Será que não és capaz de parar de pensar nele por um instante?

? Não!

Estremeceu, e os cabelos voltaram a fustigar-lhe o rosto.

? E é essa a tua resposta final hoje? Certifica-te de que estás totalmente convencida de quereres brincar a isto comigo, Elena. As consequências não são nenhuma brincadeira.

? Tenho a certeza. ? Tinha de o travar antes que voltasse a apoderar-se dela. ? E não podes intimidar-me, Damon, ou não te deste conta disso? Logo que Stefan me contou o que eras, o que tinhas feito, perdeste qualquer poder que pudesses ter tido sobre mim. Odeio-te. Metes-me nojo. E não há nada que possas fazer-me, já não.

O rosto do jovem alterou-se, a sensualidade a retorcer-se e a congelar-se, tornando-se cruel e tremendamente dura. Riu, e o seu riso ecoou uma vez e outra.

? Nada? ? perguntou. ? Posso fazer qualquer coisa, a ti e aos que amas. Não fazes a menor ideia, Elena, do que sou capaz de fazer. Mas irás descobrir.

Retrocedeu, e o vento abriu caminho através de Elena como se fosse uma faca. A sua visão pareceu toldar-se; era como se partículas de luminosidade inundassem o ar ante os seus olhos.

? Vem aí o Inverno, Elena ? disse-lhe, e a voz dele era nítida e horripilante, sobrepondo-se ao uivo do vento. ? Uma estação implacável. Antes de chegar, terás descoberto o que sou e o que não sou capaz de fazer. Antes de chegar o Inverno, ter-te-ás unido a mim. Serás minha.

A concentração de brancura cegava-a, e já não conseguia ver a massa negra que era a figura de Damon. Naqueles momentos, até mesmo a voz de Damon se desvanecia. Abraçou-se a si mesma, com a cabeça inclinada para a frente e todo o corpo estremecido. Murmurou:

? Stefan?

? Ah, e mais uma coisa. ? A voz de Damon regressou até ela. ? Perguntaste-me antes pelo meu irmão. Não te dês ao trabalho de o procurar, Elena. Matei-o ontem à noite.

A cabeça da jovem levantou-se violentamente, mas não havia nada para ver, só a estonteante brancura que lhe queimava o nariz e as faces e espessava as suas pestanas. Até esse momento, quando os finos grãos pousaram na sua pele, não compreendeu o que eram: flocos de neve.

Nevava no primeiro dia de Novembro. Lá em cima, o Sol desaparecera.







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