Julho 7, 2010

Bel, o amor para além da morte: um excerto



Doces almas perdidas,


O que vão ler a seguir é um excerto de Bel, o amor para além da morte, de que vos falámos no último post.  Sabemos que estão habituados a mundos intrigantes e personagens estranhas em situações ainda mais estranhas, mas Bel talvez consiga surpreender-vos. Uma coisa é certa, nestes tempos em que o romance floresce tantas vezes ao lado do terror, o amor revela-se, de novo, um lugar estranho, ainda que assustadoramente familiar. Boa viagem ao mundo de Bel…


2 DE FEVEREIRO, SEGUNDA?FEIRA

 

A presença de Bel não perturba o silêncio do hospital. Embora nada mais faça a não ser transpor a porta principal, ela sente a dor das gentes que sofrem neste lugar. Lança uma vista de olhos em seu redor para situar?se. Lê um painel de indicações. Observa o gabinete do fundo, que tem os vidros fechados. No seu interior, uma enfermeira vê televisão de costas para ela. Não pode vê?la. Em seguida, com passo firme e seguro, Bel per­corre o corredor até junto dos elevadores. As portas estão abertas. Entra e prime o número cinco.

A estas horas da madrugada, os corredores estão desertos. Os do quinto piso encontram?se na penumbra, e acha isso agradável, porque reparou que a luz muito brilhante lhe fere os olhos. Não saberia dizer o que a guia exactamente. Poderíamos chamar?lhe pressentimento. Bel sabe para onde vai, e também que no final do corredor irá encontrar a pessoa que mais ama no mundo. Sabe que essa pessoa, além do mais, está a sofrer. Sabe?o, porque é capaz de sentir essa dor. Além disso, acha que foi isso que a guiou até aqui. Não pode suportar que sofra.

No total, foram cento e dois passos. Agora adquiriu esse hábito, o de contar os seus passos sobre a terra, como se isso fosse importante. Vira à direita, passa à esquerda pelo posto da enfermeira ? onde não se encontra ninguém ? e penetra numa zona restrita. Outra vez à direita, escolhe um quarto, detém?se na ombreira. Observa.

Meu Deus, que pálido que está.

De repente, sente uma vontade terrível de chorar.

Um nó oprime?lhe a garganta. Nem tudo é tristeza. Também existe o amor, que a afoga de súbito.

Por fim estou contigo. Nunca mais me separarei de ti.

Avança em direcção à cama e olha fixamente para Ismael. Os seus olhos fechados, as suas mãos adormecidas de ambos os lados da cama, o tubo de plástico que sobressai dos seus lábios, a pulsação acelerada do seu coração desenhado no ecrã de uma máquina? Assim à primeira vista, trata?se ape­nas de um paciente que luta entre a vida e a morte. Se bem que para ela é muito, muitíssimo mais do que isso.

? Olá, Isma, já estou aqui. Não foi fácil cá chegar. Se soubesses de onde venho?

Esforça?se por sorrir, mas esta sua tentativa não lhe sai lá muito bem.

Senta?se junto de Isma. Pega?lhe na mão e, lentamente, deixa cair a sua cabeça sobre ela, acaricia?lhe a face devagar, roça os dedos dele com os seus lábios. Sussurra uma promessa, com os olhos inundados de lágrimas:

? Vou descobrir o que aconteceu, prometo?te. E virei ver?te todos os dias até que fiques bem.

Fica ali, muito quieta, sentada junto à cama, durante horas. De vez em quando fecha os olhos. Quando os abre de novo, olha outra vez para a cara de Ismael, e regressam a raiva e a dor, o amor e o desconcerto. Acodem à sua mente cenas do passado que partilharam juntos, embora desconheça a procedência da maioria delas. As palavras em inglês que martelam na sua cabeça, por exemplo: I?ll be Okay. Ficarei bem. Sabe que são importantes, mas não é capaz de recordar por que razão. Então, deseja com todas as suas forças que Isma se recupere, que abra os olhos, que possa libertar?se dessas máquinas que o ajudam a continuar a respirar. Que viva.

? Tenho a certeza que vais recuperar. Nem te passe pela cabeça outra ideia!

Por um momento, parece que lhe ralha. Afasta um pouco o cabelo da testa do rapaz, descobre a ferida escura, fechada, da sua cabeça. O hema­toma, os pontos. Repara no gesso do seu braço direito e nos que se adivi­nham por debaixo dos lençóis, nas duas pernas.

? Pobrezinho, como foi que te magoaste tanto? ? pergunta, sem esperar resposta.

Do corredor chega o tiquetaque de um relógio. Bel não faz ideia de que horas sejam. Ainda é noite cerrada. Beija os dedos da mão esquerda de Isma, um por um.

Sobressalta?a um som de passos. Alguém caminha a toda a pressa pelo corredor. Sabe o que isso significa: o início de um novo dia no hospital, a chegada das primeiras enfermeiras do turno da manhã, o fim da calma nocturna. Olha pela janela e dá?se conta de que está a amanhecer.

É melhor eu ir?me embora.

Não se incomoda com o tubo que sai dos lábios de Isma. Nem tão?pouco se importa que ele nem sequer se tenha dado conta da sua presença. Sente que ter vindo até aqui fez todo o sentido, que um único beijo justifica qual­quer distância. Nesse preciso momento, Bel recorda?se do conto A Bela Ador­mecida e pensa que seria genial que acontecesse a mesma coisa, que o seu beijo de amor quebrasse o feitiço da morte. Mas não foi assim. Não acontece nada. Isma continua a dormir e ela precisa ir?se embora. Ainda que lhe doa, ainda que a última coisa que deseje no mundo seja separar?se dele.

Voltarei na próxima madrugada. E em todas as outras até que acordes.

Acredita que, de algum modo, Isma se apercebe de que ela veio de muito longe para vê?lo. Que talvez possa pressenti?la, imaginá?la, adivinhá?la?

Deposita um longo beijo sobre os lábios ressequidos e entreabertos do paciente.

Até amanhã, meu amor.

E sai sem fazer ruído algum e sem que ninguém repare na sua presença.

 

QUEM SABE SE, NO PRÓXIMO POST, JÁ TEMOS NOTÍCAS DE DAMON…


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