Maio 28, 2010

A Cidade de Vidro começa assim…



Queridas feras demoníacas,


Como prometido, revelamos, antes de A Cidade do Livro sair (a 8 de Junho), o início do primeiro capítulo. Divirtam-se. No fim, não se esqueçam de encher-nos de mimos e dentadas. Queremos saber a vossa opinião!


Excerto Capítulo 1 - A CIDADE DE VIDRO, Caçadores de Sombras III, de Cassandra Clare

 

O PORTAL

 

O frio repentino da semana anterior tinha acabado; o Sol brilhava radiosamente quando Clary atravessou apressadamente o poeirento pátio da frente da casa de Luke com o capuz do blusão na cabeça para impedir que o cabelo lhe fustigasse o rosto. O dia era ameno, mas o vento que soprava do East River ainda era brutal e transportava um ligeiro odor a químicos misturado com o típico cheiro a asfalto de Brooklyn, gasolina e açúcar queimado da fábrica abandonada ao fundo da rua.

Simon estava à espera dela na varanda esparramado numa poltrona com as molas partidas. Vestido de blue jeans, brincava industriosamente com uma play?station portátil equilibrada nos joelhos usando um estilete.

? Mais um ponto! ? exclamou quando ela subia os degraus. ? Estou a limpar o sebo ao Mario Kart.

Clary puxou para trás o capuz, sacudindo os cabelos dos olhos e procurou as chaves no bolso.

? Onde tens estado? Passei a manhã inteira a telefonar-te.

Simon levantou -se, metendo o gadget rectangular com luzes a piscar dentro da sacola.

? Estive em casa do Eric a ensaiar com a banda.

Clary parou de remexer a chave na fechadura ? ficava sempre presa ? tempo suficiente para o olhar de testa franzida.

? A ensaiar com a banda? Queres dizer que vocês ainda tocam?

? Na banda? Por que não? ? Passou um braço à volta dela. ? Deixa ?me experimentar.

? Porque não tiveste outro remédio. ? Simon observou -a, pondo a cabeça de lado; a luz do candeeiro na mesa -de -cabeceira reflectia -se nos seus olhos, tornando -os prateados. ? Vou ter saudades tuas.

? Eu também ? disse Clary, embora a antecipação da partida lhe provocasse um formigueiro nervoso por todo o corpo e a impedisse de se concentrar.

Vou a Idris!, entoava a sua mente. Verei a pátria dos Caçadores de Sombras, a Cidade de Vidro. Hei ?de salvar a minha mãe.

E estarei com o Jace.

Os olhos de Simon faiscaram como se ele pudesse ouvir -lhe os pensamentos, mas a sua voz era meiga.

? Diz -me lá outra vez? Por que tens tu de ir a Idris? Por que a Madeleine e o Luke não podem tratar desse assunto sem ti?

? O feitiço que pôs a minha mãe no estado em que está foi feito por um feiticeiro chamado Ragnor Fell. A Madeleine diz que, se quisermos obter o antídoto do feitiço, teremos de o encontrar. Mas ele não conhece a Madeleine. Conhecia a minha mãe e a Madeleine pensa que ele há ?de confiar em mim porque me pareço muito com ela. E o Luke não pode vir comigo. Poderia ir a Idris, mas, aparentemente, não pode entrar em Alicante sem autorização da Clave e eles não lha querem dar. Por favor, não lhe contes nada disto? Ele já não anda muito contente por não ir comigo.

Se não tivesse conhecido a Madeleine antes, creio que não me deixaria partir.

? Mas os Lightwood também lá estarão. E o Jace? E hão -de ajudar -te.

Quer dizer, o Jace prometeu que te ajudaria, não prometeu? Ele não se importa que tu vás?

? Claro que irá ajudar -me ? disse Clary. ? E claro que não se importa.

Está contente com a minha ida.

Mas isso ela sabia que era mentira.

Clary tinha ido directamente ao Instituto depois de falar com Madeleine no hospital. Jace fora o primeiro a quem ela tinha contado o segredo da mãe, até mesmo antes de Luke. E ele estava especado a olhar para ela, empalidecendo cada vez mais à medida que ela falava, como se Clary não estivesse tanto a explicar -lhe como salvar a mãe quanto a sangrá-lo cruelmente aos poucos.

? Não vais ? disse assim que ela terminou. ? Nem que eu tenha de te amarrar e me sentar em cima de ti até que esse teu capricho demente te passe. Não irás a Idris.

Clary sentiu-se como se ele a tivesse esbofeteado. Tinha julgado que Jace ficaria contente. Viera a correr desde o hospital até ao Instituto para lhe dizer e, agora, ele estava ali diante dela à entrada a olhá-la com ar desvairado.

? Mas vocês vão.

? Sim, vamos. Temos de ir. A Clave convocou todos os membros activos disponíveis para uma grande reunião do Conselho em Idris. Vão votar sobre a decisão a tomar em relação ao Valentine e, como somos as últimas pessoas que o viram?

Clary interrompeu -o.

? Então se tu vais, por que não posso ir contigo?

A pergunta directa irritou-o ainda mais.

? Porque não é seguro para ti.

? Oh, e é mais seguro aqui? Quase fui morta dezenas de vezes no mês passado e de todas as vezes foi mesmo aqui em Nova Iorque.

? Isso aconteceu porque o Valentine estava interessado nos dois Instrumentos Mortais que se encontravam aqui ? disse Jace de dentes cerrados.

? Mas, agora, todos sabemos que ele vai concentrar -se em Idris?

? Não estamos tão certos disso ? atalhou Maryse Lightwood. Tinha estado à escuta na sombra sem ser vista por nenhum deles; avançou e as luzes duras da entrada iluminaram as suas feições exaustas. Na semana anterior, o marido, Robert Lightwood, fora atacado com um veneno demoníaco e necessitava desde então de cuidados constantes; Clary podia somente imaginar como ela devia estar cansada. ? E tu bem sabes, Jace, que a Clave quer que a Clarissa compareça diante dela.

? A Clave que se vá lixar.

? Jace? ? admoestou-o Maryse de modo, por uma vez, maternal.

? Toma tento à linguagem que usas.

? A Clave quer uma data de coisas ? emendou Jace. ? Mas não deveria necessariamente obtê -las todas.

Maryse olhou para ele como se percebesse bem o que ele queria dizer e isso não lhe agradava.

? A Clave tem com frequência razão, Jace. É razoável que queiram falar com a Clary depois de tudo o que ela passou. Ela poderia dizer -lhes?

? Eu é que lhe direi tudo o que querem saber ? declarou Jace.

Maryse suspirou e virou os olhos azuis para Clary.

? E tu desejas, segundo parece, ir a Idris.

? Só por uns dias ? disse Clary em tom suplicante sem fazer caso dos olhares coléricos de Jace a Maryse. ? Juro que não provocarei nenhum sarilho.

? A questão não é essa, mas sim a de saber se estás disposta a apresentar-te perante a Clave enquanto lá estiveres. Eles querem falar contigo. Se recusares, duvido que nos autorizem a levar -te connosco.

? Não? ? ia Jace a dizer.

? Comparecerei diante da Clave ? interveio Clary, embora a ideia lhe causasse calafrios. O único emissário da Clave que até agora tinha conhecido fora a Inquisidora e não tinha sido uma experiência lá muito agradável.

Maryse esfregou as têmporas com as pontas dos dedos.

? Está então resolvido. ? Ela não parecia estar bem; estava tensa e frágil como a corda demasiado tensa de um violino. ? Jace acompanha a Clary até à saída e depois vem ter comigo à biblioteca. Preciso falar contigo.

E Maryse voltou a desaparecer nas sombras sem sequer se despedir.

Clary sentiu-se como se tivesse apanhado com um balde de água fria em cima. Alec e Isabelle gostavam sinceramente da mãe e ela tinha a certeza que Maryse não era má pessoa, mas também não era carinhosa.

A boca de Jace era uma linha dura.

? Repara agora no que fizeste.

? Apesar de tu não compreenderes, tenho de ir a Idris ? justificou ?se Clary. ? Por causa da minha mãe.

? A Maryse confia demasiado na Clave ? disse Jace. ? Tem de acreditar que eles são perfeitos e não a posso contradizer porque?

Calou-se abruptamente.

? Porque seria precisamente isso que o Valentine diria.

Clary esperava que ele explodisse, mas tudo o que disse foi:

? Ninguém é perfeito. ? Estendeu depois a mão e espetou o dedo indicador no botão do elevador, acrescentando. ? Nem sequer a Clave.

Clary cruzou os braços no peito.

? É realmente por isso que não queres que eu vá? Por não ser seguro?

Uma breve expressão de surpresa estampou -se no rosto dele.

? Que queres dizer com isso? Por que outra razão eu não quereria que tu fosses?

Ela engoliu em seco.

? Porque? Porque me disseste já não sentires nada por mim e isso é muito embaraçoso pois eu ainda penso em ti. E aposto que tu sabes.

? Por não querer que a minha irmãzinha me siga por todo o lado? ? Havia um tom acutilante na sua voz, meio trocista, meio outra coisa mais.

O elevador parou com estrondo. Clary abriu a porta e entrou, virando ?se para encarar Jace.

? Não vou por tu lá estares. Vou porque quero ajudar a minha mãe.

A nossa mãe. Tenho de a ajudar. Não entendes? Se o não fizer, ela pode muito bem nunca mais despertar. Podias pelo menos fingir que te importas um bocadinho.

Jace colocou as mãos nos ombros dela, as pontas dos dedos tocando na sua pele nua na orla do decote e provocando -lhe arrepios. Clary reparou sem querer que ele estava com olheiras e tinha o rosto encovado. A camisola preta que Jace vestia realçava a sua pele contundida e igualmente as pestanas escuras; era um estudo de contrastes, algo a ser pintado em tons pretos, brancos e cinzentos com dourados aqui e ali, como os seus olhos, para acentuar a cor.

? Deixa -me ser eu a ajudá-la ? disse em voz doce e urgente. ? Diz ?me onde ir e a quem perguntar. Hei-de arranjar o que tu necessitas.

? A Madeleine disse ao feiticeiro que seria eu a ir. Estará à espera de ver a filha da Jocelyn e não o filho.

As mãos de Jace crisparam -se nos seus ombros.

? Diz -lhe então que houve uma mudança de planos. Irei eu e não tu. Tu,

não.

? Jace?

? Farei o que quiseres se prometeres permanecer aqui ? insistiu ele.

? Não posso.

Largou -a, como se ela o tivesse empurrado.

? Porquê?

? Porque ela é minha mãe, Jace.

? E minha também ? disse ele com frieza. ? Por que, aliás, a Madeleine não falou com ambos? Porquê só contigo?

? Sabes bem porquê.

? Porque ? disse Jace, desta vez ainda mais friamente ?, para ela, tu és a filha da Jocelyn e eu serei sempre o filho do Valentine.

Fechou com força a porta do elevador entre eles. Ela fitou -o por uns instantes ? a porta de barras de metal cruzadas dividia o seu rosto numa série de losangos em forma de diamante. Um olho dourado olhava raivosamente para ela através de um desses diamantes.

? Jace? ? murmurou.

Mas o elevador já descia aos solavancos, engolfando -a no silêncio sombrio da catedral.

 

 

Cassandra Clare em Lisboa de 14 a 16 de Junho – os pormenores no próximo post!



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