Novembro 30, 2009

1º Capítulo de Reunião Sangrenta



Olá, criaturas impiedosas

 

Já sabemos que esta capa gerou polémica, muitos amores perdidos, muitos ódios de estimação, o sangue e as rosas que vos pedimos e mesmo mais do que isso, mas, como todos sabemos, não há ninguém que não queira saber como continua Fúria, como renasce a história de Elena, Stefan e Damon, de regresso neste quarto volume de Crónicas Vampíricas. E, se a capa vos meteu medo e vos encheu de terror e assombro, não se esqueçam que foi de livre vontade que entraram neste universo e que, por vezes, qual castelo assombrado, ele também vos morde o pescoço.

 

É por isso que, lembrando que a data de saída de Reunião Sangrenta é 5 de Dezembro – sim, já estamos a correr de caninos à mostra e olhos brilhantes a caminho das livrarias -, decidimos dar-vos este aperitivo, como sempre fazemos aos nossos leitores aqui do blog: o PRIMEIRO CAPÍTULO DE REUNIÃO SANGRENTA!

 

Bebam-no até à última gota, pois só terão mais no dia 5 de Dezembro! E, claro, se não tiverem perdido a voz, gostávamos de saber o que vos vai na alma…

 

CAPÍTULO I – Reunião Sangrenta

 

? As coisas podem ser como eram antes ? disse Caroline com fervor, estendendo o braço para agarrar a mão de Bonnie.

Mas não era verdade. Nada poderia alguma vez ser como fora antes de Elena morrer. Nada. E Bonnie tinha sérias dúvidas em relação àquela festa que Caroline estava a tentar organizar. Uma vaga sensação incómoda na boca do estômago indicava-lhe que por algum motivo aquela era uma ideia muito, mas mesmo muito, má.

? O aniversário da Meredith já passou ? indicou. ? Foi no sábado passado.

? Mas não houve uma festa, não uma festa a sério como esta. Temos a noite toda; os meus pais só voltarão no domingo de manhã. Vá lá, Bonnie; pensa só na surpresa que ela vai ter.

Ah, sim, acredito que irá fi car surpreendida, pensou Bonnie.

A surpresa será tanta que provavelmente me vai matar a seguir.

? Olha, Caroline, a razão pela qual a Meredith não deu uma festa é que ainda não tem grande vontade para festejos. Parece? de certa forma um desrespeito?

? Mas isso é um erro. A Elena iria querer que nos divertíssemos, eu sei que sim. Ela adorava festas. E detestaria ver -nos aqui sentadas e a chorar por ela seis meses depois de nos ter deixado.

Caroline inclinou-se para a frente, os seus olhos verdes normalmente felinos veementes e persuasivos. Não demonstravam agora nenhum artifício, nenhuma das habituais manipulações asquerosas de Caroline. Bonnie percebia que estava a falar a sério.

? Quero que voltemos a ser amigas tal como éramos ? continuou Caroline. ? Festejávamos sempre os nossos aniversários juntas, só nós as quatro, lembras -te? E lembras -te como os rapazes tentavam sempre entrar nas nossas festas? Pergunto se irão tentar este ano.

Bonnie sentiu que estava a perder o controlo da situação. Isto é uma má ideia, isto é uma má ideia, pensou. Mas Caroline continuava a falar, mostrando -se sonhadora e quase romântica enquanto relembrava os bons velhos tempos, e Bonnie não tinha coragem para lhe dizer que os bons velhos tempos estavam tão mortos como a música disco.

? Mas já nem sequer somos quatro. Três não são uma grande festa ? protestou debilmente quando teve oportunidade de dizer algo.

? Também vou convidar a Sue Carson. A Meredith simpatiza com ela, não é?

Bonnie teve de admitir que sim; toda a gente se dava bem com Sue. Mas ainda assim, Caroline tinha de compreender que as coisas não podiam ser tal como tinham sido antes. Não se podia simplesmente substituir Elena por Sue Carson e dizer: Já está, agora está tudo solucionado.

Mas como explico isso à Caroline?, pensou Bonnie, e de repente soube.

? Vamos convidar a Vickie Bennett ? disse.

Caroline olhou para ela atónita.

? A Vickie Bennett? Deves estar a brincar! Convidar essa doida varrida que se despiu à frente de metade do liceu? Depois de tudo o que se passou?

? Precisamente por causa de tudo o que se passou ? replicou Bonnie com firmeza. ? Olha, sei que nunca esteve no nosso grupo.

Mas ela já não anda com o grupo dos maluquinhos; eles não a querem e ela tem pavor deles. Ela precisa de amigos. Nós precisamos de gente. Vamos convidá-la.

Por um momento, Caroline pareceu impotente e frustrada.

Bonnie ergueu o queixo, pousou as mãos nas ancas e aguardou.

Finalmente Caroline suspirou.

? Está bem. Vou convidá-la. Mas tens de te encarregar de levar a Meredith a minha casa no sábado à noite. E Bonnie? certifica-te de que não faz a menor ideia do que estamos a preparar. Quero realmente que isto seja uma surpresa.

? Ah, vai ser ? anuiu ela, sombria.

Não estava preparada para a repentina luz que apareceu no rosto de Caroline ou para a impulsiva calidez do seu abraço.

? Fico tão contente por partilhares o meu ponto de vista ? disse

Caroline. ? E vai ser tão bom para todas nós voltarmos a estar juntas.

Não entende nada, compreendeu Bonnie, aturdida, enquanto Caroline se afastava. O que terei de fazer para lho explicar? Dar ?lhe um murro?

E depois: Céus, agora tenho de contar isto à Meredith.

Mas ao chegar ao fi nal do dia decidiu que se calhar Meredith não precisava que lhe contassem. Caroline queria uma Meredith surpreendida; bom, talvez Bonnie devesse entregar uma Meredith surpreendida. Assim pelo menos Meredith não teria de se preocupar com isso por antecipação. Sim, concluiu Bonnie, provavelmente o mais caridoso seria não contar nada a Meredith.

«E quem sabe», escreveu no seu diário na sexta -feira à noite.

«Se calhar estou a ser muito dura com a Caroline. Talvez esteja realmente arrependida de todas as coisas que nos fez, como procurar humilhar a Elena diante de toda a cidade e tentar que prendessem o Stefan por assassínio. Talvez a Caroline tenha amadurecido desde então e aprendesse a pensar em alguém que não ela mesma. Se calhar vamos realmente divertir -nos na festa.»

E talvez os extraterrestres me sequestrem antes de amanhã à tarde, pensou enquanto fechava o diário. Só lhe restava a esperança.

O diário era um caderno em branco, barato, da papelaria local, com um padrão de fl ores diminutas na capa. Só começara a escrevê-lo logo a seguir à morte de Elena, mas já se viciara ligeiramente nele. Era o único sítio aonde podia dizer qualquer coisaque quisesse sem que as pessoas se mostrassem escandalizadas e dissessem: «Bonnie McCullough!», ou «Oh, céus, Bonnie».

Ainda estava a pensar em Elena quando apagou a luz e se meteu debaixo dos lençóis.

Estava sentada numa exuberante erva muito cuidada que se estendia até onde a sua vista alcançava em todas as direcções.

O céu era de um azul impecável, o ar cálido e perfumado. Os pássaros cantavam.

? Fico muito contente por teres podido vir ? disse Elena.

? Ah, sim ? respondeu Bonnie. ? Bom, naturalmente, também eu. É claro. ? Voltou a olhar em volta, depois apressadamente de novo para Elena.

? Mais chá?

Bonnie tinha na mão uma chávena de chá, fina e frágil como porcelana.

? Pois? claro. Obrigada.

Elena trazia um vestido do século xviii de diáfana musselina branca, que se colava a ela, mostrando a sua delgadeza. Verteu o chá com precisão, sem derramar uma gota.

? Queres um rato?

? Um quê?

? Quero dizer, queres uma sanduíche com o teu chá?

? Ah. Uma sanduíche. Sim. Fantástico.

Era pepino fi namente cortado com maionese em cima de um requintado quadrado de pão branco. Sem a côdea.

Todo o ambiente era tão cintilante e belo como uma pintura de Seurat. Warm Springs, é aí que estamos. O antigo parque de merendas, pensou Bonnie. Mas sem dúvida temos coisas muito mais importantes para discutir do que o chá.

? Quem é que te arranja o cabelo agora? ? perguntou, pois Elena nunca tinha sido capaz de o fazer ela mesma.

? Gostas?

Elena aproximou uma mão da sedosa massa de um dourado pálido que trazia presa na nuca.

? É perfeito ? disse Bonnie, soando igual à sua própria mãe numa cena das Filhas da Revolução Americana.

? Bom, o cabelo é importante, já sabes ? respondeu Elena.

Os olhos brilhavam com um azul mais profundo do que o do céu, um azul lápis -lázuli. Bonnie tocou nos próprios caracóis ruivos, algo coibida.

? Evidentemente, o sangue também é importante ? continuou Elena.

? Sangue? Ah? sim, claro que sim ? disse Bonnie, atrapalhada.

Não fazia a menor ideia sobre de que estava Elena a falar, e sentia -se como se andasse numa corda bamba por cima de crocodilos.

? Sim, o sangue é importante, acho que sim ? concordou com voz débil.

? Outra sanduíche?

? Obrigada.

Era de queijo com tomate. Elena pegou numa para ela e mordeu -a com delicadeza. Bonnie observou -a, sentindo a inquietude a aumentar dentro de si por momentos, e então? e então viu a lama a escorrer pelas bordas da sanduíche.

? O que? o que é isso?

O terror tornou a sua voz aguda. Pela primeira vez, o sonho parecia um sonho, e descobriu que não conseguia mexer -se, que só era capaz de falar entrecortadamente e olhar com os olhos arregalados.

Uma gota grossa de algo castanho caiu da sanduíche de Elena em cima da toalha aos quadrados. Era lama, sem sombra de dúvida.

? Elena? Elena? o quê?

? Ah, todos comemos isto aqui em baixo.

Elena sorriu com os dentes manchados de castanho. Só que a voz não era a de Elena; era feia e distorcida e era a voz de um homem.

? Tu também o farás.

O ar já não era cálido e perfumado; era quente e tresandava ao cheiro adocicado de lixo em decomposição. Havia covas escuras na erva verde, que afi nal não estava bem arranjada, mas sim descuidada e cheia de ervas daninhas e mato. Aquilo não era Warm Springs. Estava no velho cemitério; como é que não se tinha apercebido? Só que as tumbas eram recentes.

? Outro rato? ? ofereceu Elena, e deu uma risadinha obscena.

Bonnie baixou os olhos para a sanduíche meio comida que tinha nas mãos e gritou. De um dos lados desta havia uma fibrosa cauda castanha. Atirou -a com todas as suas forças contra uma lápide, onde embateu com um ruído surdo. Depois levantou -se, quase a vomitar, limpando os dedos freneticamente às calças de ganga.

? Ainda não podes ir embora. Os outros estão quase a chegar.

O rosto de Elena estava a mudar; já tinha perdido os cabelos, e a pele começava a tornar -se cinzenta e curtida. Havia coisas a mexer-se na bandeja das sanduíches e nas covas recém -cavadas. Bonnie não queria ver nenhuma delas; pensou que enlouqueceria se o fi zesse.

? Não és a Elena ? gritou, e correu.

O vento atirava -lhe os cabelos contra os olhos e não conseguia ver. O seu perseguidor estava atrás dela; podia senti-lo mesmo atrás de si. Tenho de chegar à ponte, pensou, e então chocou com algo.

? Estava à tua espera ? disse a coisa que trazia o vestido de Elena, a coisa cinzenta e esquelética com longos dentes retorcidos.

? Ouve -me, Bonnie. ? Agarrava -a com uma força terrível.

? Não és a Elena! Não és a Elena!

? Ouve -me, Bonnie!

Era a voz de Elena. A autêntica voz de Elena, não obscenamente divertida nem grossa e feia, mas sim urgente. Provinha algures de detrás de Bonnie e varreu o sonho como um vento frio e puro.

? Bonnie, ouve -me depressa?

As coisas fundiam -se. As mãos ossudas sobre os braços de Bonnie, o cemitério rastejante, o ar pesado e quente. Por um momento a voz de Elena soou nítida, mas intermitente como uma chamada de longa distância com uma ligação defi ciente.

? ? Ele está a distorcer as coisas, alterando -as. Não sou tão forte como ele? ? Algumas palavras escaparam a Bonnie.

? ? mas isto é importante. Tens de encontrar? agora mesmo.

? A voz desvanecia -se.

? Elena, não te ouço! Elena!

? ? Um feitiço fácil, apenas dois ingredientes, os que já te disse?

? Elena!

Bonnie ainda estava a gritar quando se levantou de repente, muito erguida, na cama.

?


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