Setembro 10, 2010

1º capítulo de Imortal: quando um livro se transforma numa febre

imortal 


Vampirinhos,


O fim-de-semana está à porta e nós queremos que entrem nele com um sorriso de deixar os caninos à mostra. Como tal, trouxémos connosco o PRIMEIRO CAPÍTULO de Imortal, de Gillian Shields, de que vos falámos no post anterior. Sabemos que a sinopse vos deixou curiosos. Entretanto, essa CURIOSIDADE já se transformou numa ESTRANHA INQUIETUDE que, por sua vez, se transformará numa FEROZ ANSIEDADE, assim que chegarem ao fim do primeiro capítulo. E DEPOIS? perguntam vocês. E nós respondemos: corram, corram muito depressa às livrarias mais próximas antes que a dentada de IMORTAL se tranforme numa INSUPORTÁVEL CRISE DE PRIVAÇÃO. Pois, somos maus, mas vocês já sabiam…


IMORTAL, de GILLIAN SHIELDS


Prólogo

 

Não acredito em fantasmas. Também não acredito em feitiçaria, tábuas dos espíritos, levitação, tarô, astrologia, maldições, cristais, pressentimentos, vampiros… nem em nenhuma das mistificações associadas ao «outro lado». É claro que não. Chamo-me Evie Johnson e sou inteligente, mentalmente sã e sensata. As raparigas como eu não se misturam de maneira alguma com esse lixo paranormal e idiota.

Pelo menos, era o que eu teria dito antes de chegar ao Colégio de Wyldcliffe Abbey. Mas agora, tudo é diferente para mim. Depois de ter vislumbrado o mundo dela, nunca mais poderei voltar a ser quem era.

Imaginem uma paisagem agreste e solitária onde as charnecas surgem em recôncavos sombrios de verde, castanho e roxo. Aqui e ali, vêem-se ovelhas nas encostas, pacientes, fustigadas pelo vento. Algumas árvores conseguiram despontar, mas permanecem nuas e atrofiadas. As charnecas envolvem uma aldeola desolada no coração do vale, como os muros de uma antiga prisão.

Bem-vindos a Wyldcliffe.

Este é o local que assombra o meu presente, o meu passado e o meu futuro. Ou seja, se eu ainda tiver um futuro. Se ele o permitir. Se não me destruir primeiro.

Ela encontra-se a meu lado, como se fosse minha irmã, mas ele habita na minha alma.

É o meu inimigo, o meu carrasco, o meu demónio.

Ele é o meu amado.

 

 

Capítulo 1

 

Nunca quis ir para um colégio interno. Viver com um grupo de miúdas ricas numa escola ostentatória nunca fez parte dos meus desejos.

Estava satisfeita com a vida que levara até aí, muito reservada. Não feliz, talvez, mas contente. E depois, num dia ameno de Setembro, a minha avó, Frankie, adoeceu gravemente.

Nunca fora uma Avó para mim, somente a minha queridíssima Frankie, a minha mãe adoptiva, a minha melhor amiga. Eu, estupidamente, acalentara a esperança de que ela nunca mudasse. Mas ninguém é imortal, nem sequer as pessoas que adoramos. E foi então que Frankie adoeceu e eu me vi obrigada a fazer as malas e a ingressar no Colégio Interno de Wyldcliffe Abbey para Raparigas. Às vezes, a vida dá-nos cada pontapé!

Eu fazia o possível por encarar esta mudança como um desafio.

A viagem para Wyldcliffe parecia durar horas, à medida que o comboio se dirigira para norte. Eu viajava sozinha. O pai queria acompanhar-me, mas eu convencera-o de que me desenvencilharia pelos meus próprios meios. Sabia que ele desejava passar todo o tempo possível da sua licença com a Frankie no lar, antes de ser obrigado a regressar ao posto militar que ocupava no estrangeiro. Garanti-lhe que seria capaz de passar umas horas sentada num comboio sem que o meu nome acabasse por figurar numa lista de pessoas desaparecidas… Francamente, pai, tenho dezasseis anos, já não sou uma criança… Não foi assim tão difícil convencê-lo.

A verdade é que pensei que seria mais fácil despedir-me dele em casa.

A última coisa que eu desejava era que aquelas raparigas presunçosas de Wyldcliffe me vissem a fungar enquanto o meu pai se afastava no carro.

Não, desta vez ninguém se condoeria da «pobre Evie». Já me bastava o que acontecera por causa da minha mãe. As pessoas a cochicharem na rua.

Os olhares de compaixão nas minhas costas. A situação não se repetiria.

Eu havia de mostrar-lhes que não precisava de ninguém. Era forte, tão forte como o mar verde e profundo. Em Wyldcliffe, ninguém me veria chorar.

Mudei para um comboio local sonolento precisamente quando começou a anoitecer. Atravessámos uma paisagem estranha de pequenas elevações de terreno cobertas de fetos e urze. Nos abismos da minha tristeza, senti uma pontinha de curiosidade. Quando eu era pequena, Frankie contara-me histórias acerca de Wyldcliffe, que ouvira à mãe dela, histórias sobre a charneca selvagem, as quintas solitárias e os céus sombrios do Norte. Eu nunca lá fora, mas agora estava a chegar. Pus de lado a revista e

os auscultadores e espreitei lá para fora, pela janela.

Meia hora depois, o comboio parou numa pequena estação situada

junto de um vale cavado e cheio de sombras. Quando transferi as minhas

malas para um táxi velho e degradado, uma rajada de vento arrastou uns

pingos de chuva.

– Para Wyldcliffe, se faz favor – disse eu.

E partimos. Tentei meter conversa com o motorista míope, mas a resposta dele resumiu-se a uns grunhidos. Continuámos em silêncio.

Entre as nuvens, avistei o Sol, que escorregava atrás da charneca como um fio de sangue. O céu plúmbeo parecia comprimir a terra. Eu vivera sempre à beira–mar, e aqueles montes sombrios provocavam em mim uma sensação estranha, como se eu estivesse encurralada. Apesar das minhas fanfarronices, de repente, senti-me muito pequena e só. Como fora estúpida em não deixar que o pai me acompanhasse… Em seguida, o táxi descreveu uma curva e finalmente avistei o campanário e os edifícios de pedra cinzenta da aldeia de Wyldcliffe.

O motorista parou junto de um pequeno estabelecimento que vendia

de tudo, na rua enegrecida pela chuva.

– Para onde vamos, então? – perguntou ele, mal-humorado.

– Para Wyldcliff Abbey – respondi. – Para o Colégio Interno de Wyldcliff

e Abbey.

Ele virou a cabeça para trás e deitou-me um olhar fulminante.

– Não a levo a esse sítio amaldiçoado – disse ele, agastado. – Pode sair e continuar a pé.

– Oh, mas… – protestei. – Não sei onde fica. E está a chover.

O homem pareceu hesitar, mas respondeu no mesmo tom:

– Não fica assim tão longe para ir a pé. Bata à porta da loja do Jones, se quiser. Ele que a leve lá, mas não eu.

Saiu do carro e deixou cair as minhas malas no pavimento molhado.

Fui atrás dele.

– Mas onde fica o colégio? Por onde vou?

– A Abadia fica ali – disse ele, apontando para a igreja com relutância.

– A uns oitocentos metros do cemitério, não mais. Diga ao Dan Jones para onde quer ir.

Um segundo depois, o carro saiu da aldeia e deixou-me para trás como se eu fosse um embrulho indesejado. Não podia acreditar que ele me despejara ali mesmo, à chuva. Bati furiosamente à porta do pequeno estabelecimento, onde se lia numa tabuleta D. Jones. Loja e posto dos correios de Wyldcliffe. Ninguém respondeu. Além de ser domingo, era tarde e estava a chover, e aparentemente já toda a gente se recolhera. Praguejei entredentes. Só me restava continuar a pé.

O Sol pusera-se e a Lua pálida tentava libertar-se de uma massa de nuvens empurradas pelo vento. Árvores altas e escuras e sepulturas inclinadas rodeavam a pequena igreja. Quando passei por ela, assustei-me com os gritos estridentes das gralhas na escuridão.

Estremeci, furiosa. Não tencionava deixar me amedrontar por uns pássaros e um cemitério reles. Aquilo parecia um cenário grotesco de um filme de terror de segunda. Olhei à volta e reparei numa velha tabuleta onde se lia abadia. Segui por essa azinhaga, a arrastar as minhas malas na lama. Nessa altura, já os meus cabelos ruivos estavam ensopados e as mãos brancas de frio, mas por dentro eu fervia, revoltada com a injustiça de tudo: primeiro, da mãe, depois, de Frankie, e agora deste maldito colégio interno, do motorista louco e da chuva estúpida, estúpida…

Perdida nos meus amargos pensamentos, só vi o cavalo – ou o cavaleiro – quando já era demasiado tarde.

Seguiu-se um grande rebuliço de cascos e de flancos lustrosos e um sobretudo a esvoaçar. Levantei a cabeça e parei, incapaz de sair do caminho de um cavalo preto que avançava para mim. Depois, o animal recuou, relinchou e algo me bateu na cabeça, de lado. Só me lembro de cair… de cair, até mergulhar na escuridão.

Quando abri os olhos outra vez, o cavaleiro apeara se e estava debruçado sobre mim. Não passava de um rapaz, pouco mais velho do que eu, mas parecia oriundo de um mundo diferente, de uma terra de livros de histórias povoadas de cavaleiros, duendes e príncipes. Os cabelos compridos e escuros emolduravam lhe o rosto pálido e sensível, com malares salientes e uns olhos azuis e brilhantes, e ele fitava me com tal atenção que me senti atrapalhada.

Isto era irreal. Eu não pertencia ao número daquelas raparigas que davam de caras com tipos bem parecidos. Levantei-me, a tremer.

– Des… desculpe – gaguejei. – Não o vi.

– Nem era de esperar que visse.

Ele tinha um ar cansado e tenso e as olheiras lembravam pequenas amolgadelas numa ameixa madura.

– Desculpe – repeti estupidamente, esperando que ele correspondesse.

Mas o rapaz ficou a olhar para mim.

– Obrigou o meu cavalo a parar de propósito?

– Atirou o cavalo na minha direcção de propósito? – ripostei, furiosa.

– Nada sofreu com isso – replicou o rapaz. – Mas não posso dizer o mesmo do meu cavalo.

O animal enorme tremia e transpirava, abanava a cabeça e revirava os olhos como se tivesse visto um fantasma.

– Oh, lamento – respondi. – Na minha terra, consideramos os seres humanos mais importantes do que os cavalos.

– O mundo está cheio de seres humanos, como ratos, mas raramente encontrei um cavalo com o qual me desse tão bem. – A expressão dele era fria como o mar no Inverno. Disse qualquer coisa em voz baixa ao animal trémulo, tacteando-lhe os flancos enlameados com os dedos compridos.

Em seguida, olhou para mim, com uma expressão um pouco menos hostil.

– Felizmente, não há nada de grave.

– Oh, ainda bem! – exclamei. – O cavalo está óptimo. Bem, é um alívio.

Julguei que estivesse ferido, coberto de lama depois de o terem atirado ao chão, oh, e atrasado para o primeiro dia num internato horrível, só isso.

Mas não, o cavalo está óptimo. Aleluia!

Furibunda, comecei a apanhar os objectos espalhados que tinham caído das minhas malas. Quem julgava ele que era, este pedante pretensioso, com os seus cabelos compridos e o sobretudo preto? Um salteador de estrada romântico? Apenas um idiota qualquer. Muito agitada, enfiei tudo na mala o mais depressa que pude. Uma camisola azul caíra numa poça de água. Agarrei nela e dei um grito.

– Ui!

A camisola abriu-se e revelou a fotografia emoldurada da minha mãe.

Ela estava linda naquela foto, a rir-se para a objectiva num dia de Verão já muito distante. Eu tinha enrolado a preciosa recordação na camisola, ao fazer as malas à pressa, para a proteger. Mas o vidro da pequena moldura partira-se e fizera-me um golpe na palma da mão e, nesse momento, caiu uma gota de sangue na cara da minha mãe.

Virei-lhe as costas. Só me apetecia ficar à chuva e gritar.

– Olhe o que fez! – exclamei, furiosa, tentando conter as lágrimas.

O rapaz atirou as rédeas para cima de um ramo baixo e em seguida enrolou habilmente a camisola na moldura partida. Pronunciou umas palavras em surdina e atirou-a para dentro da minha mala.

– A fotografia era preciosa para si – disse o rapaz abruptamente. Olhou para mim com um ar estranho e curioso, como se fosse dizer mais alguma coisa. Sustive a respiração. Ele era mesmo extraordinário, tão pálido, sereno e intenso. – Não chore, por favor.

– Não estou a chorar. – Engoli em seco, levantei-me e chupei a mão no sítio em que sangrava. – Eu nunca choro.

– Estou a ver – disse ele, com um ar trocista. – Mas tem de proteger o seu golpe e parece que isso me compete. – Com um gesto rápido, transformou um lenço de assoar branco numa ligadura e atou-a à volta da minha mão para estancar o sangue. Senti um misterioso arrepio quando a mão dele roçou na minha. – Já está – disse ele, olhando para mim com um ar mais simpático. – Reparei qualquer dano que o meu cavalo lhe tenha provocado salvando-lhe a vida. Acabo de evitar que sangrasse até à morte.

O arremedo de um sorriso despontou na sua face magra. Reparei na curvatura dos lábios e nas sobrancelhas pretas arqueadas. Ele continuava agarrado à minha mão e senti um pequeno nó de atracção debaixo das costelas.

– Não seja ridículo! – respondi, deixando cair a mão com esforço.

– Um golpezinho não é assim tão perigoso.

– Sabe mesmo quais os perigos que podem espreitá-la nesta azinhaga?

O rapaz aproximou-se mais de mim e examinou-me com uns olhos invulgarmente brilhantes. Senti o seu hálito frio na minha cara. Em seguida, tocou numa madeixa do meu cabelo molhado e acrescentou em surdina:

– Como sabe o que espera neste vale uma rapariga vinda do mar revolto?

Estremeci, sem saber o que havia de dizer. Como sabia ele que eu vinha do mar? Quem era ele? E poderia, ou tencionaria, fazer-me algum mal neste local solitário? Afastei-me dele, fiquei hirta e comecei a rememorar tudo o que aprendera acerca de autodefesa. Foi como se o rapaz lesse a minha mente.

– Não se preocupe. Chegará sã e salva esta noite. – Sorriu e montou no cavalo. – Mas voltaremos a encontrar-nos, prometo-lhe.

Afastou-se a galope na direcção da aldeia. Voltaremos a encontrar-nos.

Empurrei o pensamento para um lugar secreto, sem querer admitir que esperava que ele não se enganasse.

A chuva copiosa devolveu-me a lucidez. Reuni as minhas coisas e percorri a azinhaga na direcção da Abadia. Por fi m, cheguei a um portão de ferro inserido num muro de pedra. Numa velha tabuleta pregada a um dos lados do portão lia-se:

 

WYLDCLIFFE ABBEY

SÊ BEM-COMPORTADA

OU MORRES

S

Horrorizada, voltei a olhar e depois soltei uma risadinha frouxa. Li a tabuleta outra vez, preenchendo as lacunas em que as letras pintadas haviam desaparecido com o tempo.

 

WYLDCLIFFE ABBEY

COLÉGIO INTERNO

PARA RA PARIGAS

 

Finalmente, tinha chegado.

 

 

 

QUE TAL? FALEM CONNOSCO, NÃO FIQUEM A SOFRER SOZINHOS.

 


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