Junho 22, 2010

1º capítulo de Desaparecidos, de Michael Grant



Olá, criaturas maquiavélicas


Como prometido, o primeiro capítulo de Desaparecidos, de Michael Grant. Para quem não esteve atento, eis a sinopse e o trailer do livro. Já podem começar a roer as unhas! Desaparecidos vai estar nas livrarias a partir de 26 de Junho.


Primeiro capítulo de Desaparecidos, de Michael Grant.


CAPÍTULO UM

 

299 horas, 54 minutos

 

O professor estava a falar sobre a Guerra Civil. De repente desapareceu.

Assim, sem mais nada.

Sumiu?se.

Sem um «puf». Sem um raio de luz. Sem uma explosão.

Sam Temple estava na aula do terceiro ano de História, o olhar vazio fixado no quadro, mas a cabeça muito longe dali. Via?se na praia, com Quinn. Na praia com as pranchas, aos gritos, prontos para o primeiro mergulho nas águas frias do Pacífico.

Por um momento pensou que o desaparecimento do professor era imaginação sua. Como se estivesse a sonhar acordado. Voltou?se para Mary Terrafino, que estava ao seu lado e perguntou:

? Viste aquilo?

Mary não despegava os olhos do local onde ainda havia pouco se encontrava o professor.

? Para onde foi o senhor Trentlake?

Quem formulou a pergunta foi Quinn Gaither, o melhor, e talvez o único amigo de Sam. Quinn estava sentado atrás dele. Ambos tinham preferência por lugares perto da janela porque às vezes, quando o ângulo se proporcionava, se podia entrever uma nesga da água de reflexos prateados entre os edifícios da escola e as casas que ficavam mais além.

? Parece que saiu ? observou Mary sem convicção.

Edilio, um miúdo dos novos, e que Sam considerava potencialmente interessante, disse:

? O tipo desapareceu! Puf!

Fez um gesto com os dedos, a sublinhar as palavras. Os miúdos olharam uns para os outros, a torcer nervosamente o pescoço para a esquerda e para a direita. Ninguém se assustou. Ninguém desatou aos gritos. Aquilo até tinha alguma piada.

? O senhor Trentlake sumiu?se? ? perguntou Quinn, a suprimir uma gargalhada.

? Eh! ? gritou alguém. ? Onde é que está o Josh?

As cabeças viraram?se em todas as direcções.

? Ele veio hoje?

? Veio, estava aqui mesmo ao meu lado.

Sam reconheceu a voz. Bette. A Bette, Saltitante.

? Desapareceu ? insistiu Bette. ? Como o senhor Trentlake.

A porta do corredor abriu?se. Todas as cabeças se voltaram. O senhor Trentlake ia entrar, possivelmente acompanhado por Josh, e explicar como é que tinha realizado aquele truque de magia. Depois voltaria a fazer ouvir a sua voz esganiçada sobre a Guerra Civil, na qual ninguém estava interessado.

Mas não era o senhor Trentlake. Quem entrou foi Astrid Ellison, mais conhecida como Astrid, o Génio, porque? porque de facto era um génio. Frequentava todas as aulas avançadas que havia na escola, e algumas cadeiras online da universidade. Astrid usava os cabelos loiros pelos ombros e gostava de vestir blusas brancas engomadas, de manga curta, que atraíam os olhares de Sam. É claro que Astrid pertencia a uma outra classe social, Sam bem o sabia.

Mas não havia nenhuma lei que o proibisse de pensar nela.

? Onde é que está o vosso professor? ? perguntou Astrid.

A resposta foi um encolher de ombros geral.

? Sumiu?se ? respondeu Quinn, em tom de gracejo.

? Não está lá fora no corredor? ? perguntou Mary.

Astrid abanou a cabeça.

? Está a acontecer uma coisa estranha. No meu grupo de estudo de matemática? éramos só três, desapareceram todos, incluindo a professora.

? O quê?! ? perguntou Sam.

Astrid olhou directamente para ele. Sam não desviou o olhar, como de costume, porque os olhos dela não transmitiam o habitual desafio céptico.

O que viu neles foi medo. Os grandes olhos azuis e penetrantes estavam muito abertos, a mostrar demasiado branco.

? Desapareceram. Desapareceram? e pronto.

? E a tua professora? ? quis saber Edilio.

? Também desapareceu.

? Desapareceu?!

? Puf! ? insistiu Quinn, desta vez com uma gargalhada menos segura, a ver que afinal não se tratava de uma brincadeira.

Sam apercebeu?se de um som. De facto era muito mais do que um som. Alarmes de automóveis, à distância, vindos do lado da cidade. Levantou?se, embaraçado, como se não lhe competisse fazer aquilo, e moveu as pernas hirtas em direcção à porta. Astrid afastou?se para o deixar passar. O cheiro do champô dela chegou?lhe ao nariz.Sam olhou para o lado esquerdo, para a sala 211, onde se costumavam reunir Astrid e os outros marrões de matemática. Pela moldura da porta da sala seguinte, a 213, emergiu a cabeça de um garoto. O seu rosto tinha uma expressão a um tempo divertida e assustada, como a de alguém que anda na montanha?russa.

Da direcção oposta, da sala 207, vinham as gargalhadas estridentes dos miúdos. Anormalmente agudas. Pessoal do quinto ano. Do outro lado do átrio, da sala 208, três alunos do sexto saíram a correr para o corredor, onde se imobilizaram. De olhos cravados em Sam, como se tivessem receio de que ele lhes ralhasse.

A escola de Perdido Beach era característica de uma terra pequena, frequentada por todos os alunos desde o jardim?de?infância até ao nono ano, todos num único edifício. O primeiro e o segundo ciclo tinham aulas juntos. O liceu ficava em San Luis, a uma hora de automóvel. Sam dirigiu?se para a sala de Astrid, que o seguiu na companhia de Quinn. A sala estava vazia. Nenhuma cadeira ocupada, incluindo a do professor. Os manuais de matemática estavam em cima das carteiras, abertos.

Os portáteis também. Os ecrãs dos seis vetustos computadores Mac cintilavam, vazios.

No quadro estava escrito a giz: «Polin.»

? Ela estava a escrever a palavra «polinómio» ? disse Astrid num sussurro, como se estivesse na igreja.

? Estava a ver isso mesmo ? respondeu Sam secamente.

? Já tive um polinómio. O médico tirou?mo ? gracejou Quinn.

Astrid ignorou a tentativa canhestra de fazer humor.

? Desapareceu quando ia a escreveu o «o». Eu estava a olhar para ela.

Com um movimento ligeiro, Sam apontou para um pedaço de giz que estava no chão, no lugar onde teria caído se alguém que estivesse a escrever «polinómio» ? ou lá o que era ? o tivesse largado antes de terminar o «o».

? Isto não é normal ? disse Quinn.

Quinn era mais alto e mais encorpado que Sam, e quase tão bom surfista como ele. Mas com o seu sorriso meio destrambelhado e o hábito de se vestir com o que poderia chamar?se um uniforme ? naquele dia eram calças largas, botas excedentárias do exército, uma camisa de golfe cor?de?rosa e um chapéu de feltro cinzento que tinha encontrado no sótão entre os objectos do pai ? tinha um ar tresloucado que repelia alguns e assustava outros. O grupo de Quinn era só Quinn, e talvez fosse por isso que ele e Sam se davam tão bem. Sam Temple era mais discreto. Vestia calças de ganga e camisas pouco vistosas, nada que chamasse a atenção. A maior parte da sua vida fora passada em Perdido Beach, a frequentar a escola, e toda a gente sabia quem ele era, embora poucos realmente o conhecessem. Um surfista que não convivia com os surfistas. Era um rapaz esperto, mas não um «crânio». Tinha uma boa aparência, mas não tanto que as raparigas o achassem excitante. Aquilo que todos sabiam a respeito de Sam Temple é que era o Sam Autocarro. Tinham?lhe posto a alcunha no sétimo ano. A turma tinha tido uma aula de campo e o motorista do autocarro sofrera um ataque cardíaco. Por essa altura circulavam na auto?estrada n.º 1. Sam puxou o homem do assento, conduziu o veículo para a berma, estacionou?o, e ligou calmamente para o 112 pelo telemóvel do condutor. Se tivesse hesitado um segundo que fosse o autocarro ter?se?ia precipitado por uma ribanceira e caído no mar.

Até o retrato dele tinha vindo no jornal.

? Os outros alunos e a professora desapareceram. Todos, salvo Astrid ? disse Sam. ? É evidente que isto não é normal. Tentou não gaguejar ao dizer o nome dela, mas não foi capaz. Tinha esse efeito nele.

? É. Isto por aqui está muito sossegado, mano. Parece que é altura de acordar.

Quinn já não tinha vontade de brincar.

Ouviu?se um grito.

Correram os três para o átrio, que já estava cheio de miúdos. Os gritos eram de Becka, uma aluna do sexto ano. Tinha o telemóvel na mão.

? Ninguém responde. Ninguém responde ? gritava ela, desfeita em lágrimas. ? Não há nada.

Por um momento, todos ficaram estáticos. Seguiu?se uma restolhada e o ruído de dezenas de dedos a premir teclas de telefone.

? Isto não dá nada.

? A minha mãe devia estar em casa e atender. Nem sequer está a tocar.

? Meu Deus, também não há Internet. Tenho sinal, mas não consigo entrar.

? Eu tenho três barras.

? Eu também, mas não funciona.

Alguém desatou num choro que mais parecia um uivo em crescendo.

Todos falavam ao mesmo tempo e depressa se generalizou uma berraria.

? Tenta o 112 ? sugeriu uma voz trémula.

? Para onde é que pensas que estou a ligar, ó chanfrado?

? O 112 não atende?

? Nada. Já tentei todas as teclas de ligação rápida, e nada.

O átrio estava repleto de miúdos, como num intervalo das aulas. Mas ninguém se apressava para entrar na aula seguinte, ninguém brincava, ninguém abria ou fechava os cadeados dos armários. Ninguém se mexia, pareciam uma manada de gado prestes a entrar em debandada.

A campainha retiniu com a intensidade de uma explosão. Alguns estremeceram, como se nunca a tivessem ouvido antes.

? O que vamos fazer? ? foi a pergunta formulada por várias vozes.

? Tem de estar alguém na secretaria ? gritou um dos miúdos. ? A campainha foi desligada.

? É um interruptor automático, palhaço.

A voz era a de Howard. Howard era um magricela insignificante, mas era o lambe?botas preferido de Orc, uma poderosa massa de gordura e músculos do oitavo ano que era capaz de intimidar até os mais velhos. Ninguém mandou calar Howard. Insultar Howard era provocar Orc.

? Na sala dos professores há uma televisão ? lembrou Astrid.

Sam e Astrid dispararam em direcção à sala dos professores, seguidos de perto por Quinn. Voaram pela escada abaixo até ao piso térreo, onde havia menos salas de aula e menos alunos. Imobilizaram?se quando Sam deitou a mão ao puxador da sala.

? Não estamos autorizados a entrar aí ? avisou Astrid.

? Quem é que quer saber disso?

Sam abriu a porta. Os professores tinham um frigorífico, que estava aberto. No chão encontrava?se uma embalagem de iogurte, o conteúdo espalhado sobre a alcatifa puída. A televisão estava ligada, mas sem imagem, só electricidade estática. Sam olhou em redor, à procura do telecomando. Quinn encontrou?o. Percorreu os canais um por um. Nada, absolutamente nada.

? O cabo foi?se ? observou Sam, ciente de que estava a dizer um disparate.

Astrid desligou o cabo coaxial instalado na traseira do aparelho.

O ecrã tremeluziu, a qualidade da estática alterou?se um pouco, mas quando Quinn seleccionou os diversos canais não encontrou nada.

? Consegue?se sempre sintonizar o canal nove, mesmo sem o cabo ? disse Quinn.

? Os professores, alguns alunos, o cabo, as emissões de televisão, os telemóveis, tudo desaparece ao mesmo tempo?

Astrid formulou a pergunta em voz alta. A testa enrugou?se, num esforço para perceber o que se estava a passar. Sam e Quinn ficaram calados, à espera, como se ela tivesse uma resposta do género: «Ah, é claro, já percebi.» Afinal de contas era Astrid, o Génio. Mas tudo quanto disse foi:

? Isto não faz qualquer sentido.

Sam levantou o auscultador do telefone de parede, ligado à rede fixa.

? Não tem sinal. Não há por aí nenhum rádio?

Não havia. A porta abriu?se repentinamente e entraram a correr dois miúdos do quinto ano, de rosto afogueado.

? A escola é nossa! ? gritou um deles.

O outro correspondeu com um grito de excitação.

? Vamos rebentar com a máquina dos chocolates ? declarou o primeiro, muito entusiasmado.

? Talvez não seja boa ideia ? avisou Sam.

? Não tens nada com isso.

Provocador mas pouco firme, inseguro de ter ou não ter razão.

? Tens razão, puto, mas se tentássemos ficar unidos até percebermos o que se está a passar?

? Fiquem vocês unidos ? retorquiu o garoto.

O outro concordou com um grunhido e saíram os dois.

? Não acho que lhes deva pedir que me tragam um Twix ? murmurou Sam.

? Quinze anos ? disse Astrid.

? Nada disso, não deviam ter mais de dez ? disse Quinn.

? Não são eles. São os rapazes que estavam na minha sala. Jink e Michael. Eram fantásticos a matemática, melhores do que eu, mas tinham algumas disfunções de aprendizagem, dislexia, creio eu, que os obrigaram a atrasar?se um pouco. Eram um bocadinho mais velhos. A única que tinha catorze anos era eu.

? Na nossa turma penso que só o Josh tinha quinze anos ? disse Sam.

? E então?

? Tinha quinze anos, Quinn? e desapareceu. Num abrir e fechar de olhos.

? Não percebo ? disse Quinn, a abanar a cabeça. ? Todos os professores e os miúdos mais velhos da escola desapareceram? Isto não faz sentido.

? Não foi só na escola ? corrigiu Astrid.

? Então? ? perguntou Quinn.

? Então os telefones e a televisão?

? Não, não, não ? recusou Quinn, que continuava a abanar a cabeça e a esboçar um sorriso idiota, como se tivesse ouvido uma anedota sem piada.

? A minha mãe! ? exclamou Sam.

? Eh, pá! Acaba lá com isso ? atalhou Quinn. ? Olha que não tem piada nenhuma.

Pela primeira vez Sam sentiu?se prestes a ser invadido pelo pânico, um formigueiro na base da espinha. O coração saltava?lhe no peito, como se tivesse feito uma corrida. Engoliu em seco. Tentou inspirar fundo, mas não foi capaz. Só uns breves haustos. Olhou para a cara do amigo. Nunca vira Quinn tão assustado. Tinha os olhos escondidos pelos óculos de sol, mas os lábios tremiam?lhe, e no pescoço começava a alastrar uma mancha cor?de?rosa. Astrid continuava calma, de testa franzida, a tentar compreender o que se estava a passar.

? Temos de confirmar ? conseguiu articular Sam.

Quinn emitiu uma espécie de soluço. Ia a virar?se quando Sam o deteve, a agarrá?lo por um ombro.

? Larga?me, mano ? sacudiu Quinn. ? Tenho de ir a casa. Tenho de ver.

? Todos temos de ir ver ? concordou Sam. ? Mas vamos juntos.

Quinn tentou afastar?se, mas Sam apertou?lhe o ombro com mais força.

? Quinn! Vamos juntos, meu. Parece que foi uma razia. Vais lançado para fazer o quê?

? Vê lá se não te excitas ? murmurou Quinn entredentes.

? Está bem. E tu, tenta entrar de cabeça pelo centro do redemoinho.

Para depois nadares em direcção à luz, tá?

? É uma metáfora do surf ? ? perguntou Astrid.

Quinn não insistiu mais, apenas soltou um suspiro trémulo.

? Está bem. Tens razão. Juntos. Mas primeiro a minha casa. Isto é um sarilho inacreditável.

? Astrid? ? perguntou Quinn, sem saber se ela estaria disposta a ir com ele e com Quinn. Não tinha a certeza se lhe devia perguntar ou não. Astrid olhou para Sam e viu que ele tentava interpretar a sua expressão. Sam percebeu que Astrid, o Génio, também não fazia ideia do que devia fazer, nem para onde devia ir. Parecia impossível.

Do corredor chegou um ruído cacofónico de vozes em crescendo. Gritos de pavor, palavras desconexas, como se tudo estivesse bem enquanto não deixassem de falar. Algumas vozes gritavam selvaticamente.

Um som desagradável. Assustador em si mesmo.

? Vens connosco, Astrid? Juntos estaremos mais seguros.

Astrid sentiu um arrepio ao ouvir a palavra «seguros». Mas assentiu.

A escola era agora um lugar perigoso. As pessoas apavoradas são capazes de coisas pavorosas. Mesmo as crianças. O medo pode ser perigoso. O medo induz à agressão. E a única coisa que grassava na escola era o medo. A vida em Perdido Beach tinha mudado. Acabava de acontecer algo terrível e monstruoso. Sam tinha esperança de que não fosse por sua culpa.



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