Março 21, 2010

1º capítulo As Filhas das Trevas – O Mundo da Noite II



Olá, criaturas inomináveis


Aproximando-se a data de saída de As Filhas Das Trevas, o segundo volume de O Mundo da Noite, de L. J. Smith, que chegará às livrarias no dia 25 de Março (mesmo dia em que estreia, nos EUA,  o próximo episódio da série Diários do Vampiro), ei-lo, como prometido, o primeiro capítulo, em exclusivo neste blog.


Para os que não leram a sinopse, podem encontrá-la aqui. Poderão contar com mais uma história em que as leis do Mundo da Noite são corajosamente transgredidas e em que as personagens terão de sofrer as consequências dos seus actos, ou melhor, dos seus sentimentos…


1º CAPÍTULO AS FILHAS DAS TREVAS – MUNDO DA NOITE II


? Rowan, Kestrel e Jade ? disse Mary?Lynnette quando ela e Mark passaram pela velha casa de campo vitoriana.

? Quê?

? Rowan. E Kestrel. E Jade. Os nomes das raparigas que vão mudar?se para aqui. ? Mary?Lynnette inclinou a cabeça na direcção da casa de campo. Tinha as mãos ocupadas com a cadeira de jar­dim. ? São sobrinhas da senhora Burdock. Não te lembras de eu te ter dito que elas vinham viver com a tia?

? Vagamente ? respondeu Mark, reajustando o peso do teles­cópio que transportava quando ambos subiam a custo o monte coberto de erva?ursina. O irmão falava pouco e Mary?Lynnette sabia que isso se devia ao facto de ser tímido.

? São nomes bonitos ? comentou ela. ? E pelo que a senhora Burdock disse, as raparigas devem ser amorosas.

? A senhora Burdock é doida.

? É apenas excêntrica. E ontem disse?me que as sobrinhas são todas lindas. Quer dizer, tenho a certeza que ela está a ser parcial e tudo, mas foi categórica. São todas fabulosas, mas completamente diferentes umas das outras.

? Nesse caso, deviam ir para a Califórnia ? disse Mark, num tom quase inaudível. ? Deviam posar para a Vogue. Onde queres isto? ? perguntou, assim que chegaram ao cimo do monte.

? Aqui mesmo.

Mary?Lynnette pousou a cadeira. Afastou um pouco de terra com o pé para que o telescópio ficasse bem nivelado. Depois, acres­centou, com naturalidade:

? Sabes, talvez devêssemos passar por lá amanhã para nos apresentarmos, uma espécie de cumprimento de boas?vindas, percebes?

? Tiras essa ideia da cabeça? ? disse Mark, conciso. ? Sei orga­nizar a minha própria vida. Se eu quiser travar conhecimento com uma rapariga, travo. Não preciso de ajuda.

? Ok, ok, não precisas de ajuda. Tem cuidado com esse tubo de focagem?

? E, além disso, que iremos dizer? ? acrescentou Mark, jamais entusiasmado. ? Bem?vindas a Briar Creek, onde nada acon­tece. Onde há mais coiotes do que pessoas. Onde, se quiserem mesmo distrair?se um pouco, podem ir até à cidade e assistir à corrida de ratos de sábado à noite no Gold Creek Bar?

? Ok, ok. ? Mary?Lynnette suspirou. Olhou para o irmão mais novo, que nesse momento foi iluminado pelos últimos raios do Sol poente. Quem o visse nesse instante, julgaria que ele nunca estivera doente na vida. Tinha o cabelo preto e brilhante como de Mary?Lynnette e os olhos eram azuis, límpidos e impertinentes. O tom moreno e saudável da tez era igual ao da irmã, assim como o rubor da face.

Mas em bebé fora magro, escanzelado, com uma enorme difi­culdade em respirar. A asma, de tão agressiva, obrigara?o a passar a maior parte do seu segundo ano de existência numa tenda de oxi­génio, a lutar pela vida. Mary?Lynnette, dezoito meses mais velha, todos os dias se interrogava se o irmão alguma vez voltaria para casa.

O facto de estar sozinho na tenda, onde nem a mãe podia tocar?lhe, modificara-o. Quando saiu, vinha tímido e carente? sempre agarrado ao braço da mãe. E, durante anos, não conseguira praticar desporto como os outros miúdos. Já lá ia muito tempo ? Mark preparava?se para entrar no penúltimo ano do liceu ? mas a timidez não desaparecera. E quando jogava à defesa, não poupava ninguém.

Mary?Lynnette formulou o desejo de que uma das raparigas novas na terra fosse a indicada para ele, o desemburrasse um pouco, lhe incutisse confiança. Talvez ela pudesse dar um jeito?

? Em que estás a pensar? ? perguntou Mark, desconfiado.

Mary?Lynnette reparou que ele a observava.

? Em como a observação vai ser mesmo boa esta noite ? res­pondeu ela com doçura. ? Agosto é o melhor mês para observar as estrelas; o ar está tão calmo e imóvel. Olha, lá está a primeira estrela? podes formular um desejo.

Ela apontou para um ponto de luz brilhante na linha do hori­zonte, a sul. Resultou. Mark estava distraído e também olhou.

Mary?Lynnette observou os cabelos pretos do irmão, vistos de trás. Se te fizesse bem, gostava que houvesse romantismo na tua vida, pensou ela.

E desejava o mesmo para mim, também? mas para quê? Não há ninguém nesta terra com quem ser romântico.

Nenhum dos rapazes do liceu ? excepto talvez Jeremy Lovett ? compreendia o motivo pelo qual ela se interessava por astro-nomia nem o que sentia em relação às estrelas. Mary?Lynnette raramente se importava com isso ? mas de vez em quando sentia uma dorzinha no peito. Um desejo de? partilhar. Se tivesse dese­jos, seria esse, que existisse alguém com quem partilhara noite.

Oh, bem. Não adiantava insistir na mesma tecla. E além disso, apesar de ela nada querer dizer a Mark, o que eles desejavamera o planeta Júpiter e não uma estrela.

 

Mark abanou a cabeça ao descer o caminho que serpenteava no meio do mato e da cicuta. Devia ter pedido desculpa a Mary?Lynnette antes de se vir embora ? não gostava de ser desagradável com ela. Aliás, a irmã era a única pessoa para quem ele tentava em geral ser decente.

Mas porque se esforçava sempre por controlá?lo? Ao ponto de fazer pedidos às estrelas. E, de qualquer modo, Mark não fizera verdadeiramente um pedido. Pensara: se eu fizesse um pedido, o que não faço porque é parolo e estúpido, seria para que existisse alguma animação por estas bandas.

Qualquer coisa entusiasmante, pensou Mark? e teve um cala­frio ao descer a encosta ao lusco?fusco.

 

Jade olhou fixamente para o ponto de luz brilhante e firme no horizonte, a sul. Sabia que era um planeta. Nas duas últimas noites, vira?o deslocar?se no céu, acompanhado por pontinhosluminosos que deviam ser as suas luas. Na terra donde vinha,ninguém tinha o hábito de pedir algo às estrelas, mas este planeta parecia um amigo ? um viajante, precisamente como ela. Ao observá?lo nessa noite, Jade sentiu uma espécie de concentração de espe­rança a nascer no seu íntimo. Quase um desejo.

Jade teve de admitir que o começo não se afigurava muito promissor. Na atmosfera nocturna reinava uma calma excessiva; não se ouvia sequer o ruído de um carro a aproximar?se. Estava cansada, inquieta e começava a ter muita, muita fome.

Virou?se para as irmãs.

? Bem, onde está ela?

? Não sei ? respondeu Rowan, com a sua voz mais terna. ? Tem paciência.

? Bem, talvez devêssemos ir à procura dela.

? Não ? respondeu Rowan. ? De maneira nenhuma. Não te esqueças da decisão que tomámos.

? Talvez se tenha esquecido na nossa vinda ? alvitrou Kestrel. ? Eu avisei?vos de que ela estava a ficar senil.

? Não digas essas coisas. Não é delicado ? disse Rowan, ainda com ternura, mas já a cerrar os dentes.

Rowan era sempre terna quando conseguia. Tinha dezanove anos e era alta, magra e imponente. Os olhos eram cor de canela e o cabelo castanho ondulado caía?lhe em cascata pelas costas.

Kestrel, de dezassete anos, tinha o cabelo cor de ouro velho, afastado da cara como as asas de um pássaro. Os olhos eram cor de âmbar e lembravam os de um falcão. Kestrel nunca era terna.

Jade, a mais nova, acabara de completar dezasseis anos e não se parecia com nenhuma das irmãs. Servia?se do cabelo louro?esbranquiçado para se esconder e tinha olhos verdes. As pessoas diziam que ela aparentava serenidade, mas era raro sentir?se calma. De um modo geral, ou estava muito excitada ou terrivelmente ansiosa e confusa.

Nesse momento, era a ansiedade que a dominava. Estava preo­cupada com a velha mala de couro de Marrocos que já contava com meio século de existência. Não se ouvia nada lá dentro.

? Porque não vão vocês a duas um pouco à frente para ver se ela está a chegar?

As irmãs olharam para ela. Havia poucas coisas em relação às quais Rowan e Kestrel estivessem de acordo, mas Jade era uma delas. Jade percebeu que as irmãs se preparavam para se unir contra ela.

? Que temos agora? ? perguntou Kestrel, mostrando os dentes por breves instantes.

E Rowan disse:

? Andas a tramar alguma. Que andas a tramar, Jade?

Jane distendeu os pensamentos e a face e limitou?se a olhar para elas com um ar ingénuo. Pelo menos, era essa a sua esperança.

Elas fitaram?na por uns momentos e em seguida olharam uma para a outra, desistindo.

? Teremos de ir a pé ? disse Kestrel a Rowan.

? Há coisas piores que andar a pé ? disse Rowan. Afastou uma madeixa de cabelo castanho da testa e deu uma olhadela à esta-ção dos autocarros, que se resumia a um cubículo envidraçadoaberto à frente e a um banco de madeira lascada. ? Quem me dera que houvesse aqui um telefone.

? Mas não há. E são trinta e tal quilómetros até Briar Creek ? disse Kestrel, em cujos olhos dourados perpassou um estranho lampejo de satisfação. ? Talvez fosse melhor deixarmos aqui as nos­sas malas.

Jade ficou alarmada.

? Não, não. Tenho lá todas? todas as minhas roupas. Vamos embora, trinta e poucos quilómetros não é assim tanto.

Com uma das mãos pegou na transportadora dos gatos ? era feita em casa, só tábuas e arames ? e com a outra agarrou na mala. Já avançara bastante quando ouviu o cascalho a estalar mais atrás. As irmãs seguiam?na: Rowan a suspirar, paciente, e Kestrel a rir baixinho, com o cabelo a brilhar como ouro velho à luz das estrelas.

A estrada, só com uma faixa, estava escura e deserta. Mas não totalmente silenciosa ? havia dezenas de pequenos sons nocturnos, que contribuíam para a calma nocturna, complexa e harmoniza­dora. Teria sido agradável, mas a mala de Jade cada vez parecia mais pesada, e ela tinha mais fome do que nunca. Não caiu na asneira de se lamentar a Rowan, embora se sentisse confusa e fraca.

Justamente quando começava a pensar que teria de pousar a mala para descansar, ouviu um novo som.

Era um automóvel, atrás delas. O motor era tão barulhento que parecia demorar muito a aproximar?se, mas quando passou por elas, Jane verificou que o automóvel seguia mesmo muito depressa. Depois parou, fazendo ranger o cascalho. Fez marcha atrás e Jade viu um rapaz a olhar para ela, pela janela.

Havia outro rapaz no lugar do passageiro. Jade olhou para eles com um ar curioso.

Aparentavam ser mais ou menos da idade de Rowan e estavam ambos muito bronzeados. O que ia ao volante era louro e parecia que não se lavava há uns tempos. O outro tinha cabelo castanho. Vestia um colete sem camisa por baixo. Levava um palito na boca.

Olharam ambos para Jade, mostrando?se tão curiosos como ela. Depois, o vidro do lado do condutor abriu?se. Jade ficou fasci­nada com a rapidez.

? Precisam de uma boleia? ? perguntou o condutor, com um sorriso particularmente esfuziante. Os dentes brilhantes contras­tavam com a cara encardida.

Jade olhou para Rowan e Kestrel, que se aproximavam. Kestrel manteve-se calada, mas mirou o carro com ar de poucos amigos e uns olhos pestanudos. Os olhos castanhos de Rowan eram muito meigos.

? Claro que sim ? respondeu ela, a sorrir.

Depois, hesitante, acrescentou:

? Mas vamos para a Quinta Burdock. Talvez não vos fique em caminho?

? Ora, eu conheço essa casa. Não é longe ? disse o do colete, sem tirar o palito da boca. ? Seja como for, por uma senhora faz?se tudo ? disse ele, com o que pareceu ser um assomo de galanteria. Abriu a porta do seu lado e saiu do carro. ? Uma de vocês pode ir à frente e eu vou atrás com as outras duas. Que sorte a minha, hem? ? comentou ele, dirigindo?se ao condutor.

? Que sorte a tua ? respondeu o condutor, fazendo mais um sorriso rasgado. Também abriu a porta. ? Entrem e ponham essa transportadora à frente; as malas podem ir na bagageira.

Rowan sorriu a Jade, que percebeu o que a irmã estava a pen­sar. Pergunto a mim própria se toda a gente daqui será tão simpática. Distribuíram os seus pertences e em seguida entraram no carro, Jade à frente com o condutor, Rowan e Kestrel atrás, com o jovem de colete no meio. Um minuto depois, voavam pela estrada, a uma velocidade que Jade considerou deliciosa, com o cascalho a ranger debaixo dos pneus.

? Eu sou o Vic ? disse o condutor.

? Eu sou o Todd ? disse o jovem de colete.

Rowan fez as apresentações:

? Eu sou a Rowan e esta é a Kestrel. Essa aí é a Jade.

? São amigas?

? Somos irmãs ? respondeu Jade.

? Não parecem irmãs.

? Toda a gente diz o mesmo.

Jade referia?se a toda a gente que tinham conhecido desde que haviam fugido de casa. Na terra delas, todos sabiam que eram irmãs, portanto ninguém falava no assunto.

? Que fazem aqui a uma hora tão tardia? ? perguntou Vic. ? Isto não é sítio para umas raparigas tão simpáticas.

? Nós não somos raparigas simpáticas ? respondeu Kestrel, distraída.

? Vamos tentar ser ? corrigiu Rowan, com um ar reprovador.

E, dirigindo?se a Vic:

? Esperávamos que a nossa tia?avó Opal nos fosse buscar à paragem do autocarro, mas ela não apareceu. Vamos viver para a Quinta Burdock.

? A velha senhora Burdock é vossa tia? ? perguntou Todd, largando o palito. ? Aquela ginja tresloucada?

Vic virou?se, olhou para ele e ambos riram e abanaram a cabeça.

Jade desviou o olhar de Vic. Concentrou?se na transportadora de gatos, ouvindo os guinchinhos que provavam que Tiggy estava acordado.

Sentiu?se um pouco? inquieta. Pressentia qualquer coisa. Apesar de aqueles rapazes parecerem amigáveis, havia algo oculto. Mas tinha tanto sono ? e sentia?se tão estonteada devido à fome ? que nem percebeu exactamente o que era.

Aparentemente, só passado muito tempo é que Vic voltou a falar.

? Vocês já estiveram alguma vez no Oregon?

Jade pestanejou e disse que não em surdina.

? Tem sítios bastante solitários ? disse ele. ? Este, por exemplo. Briar Creek nasceu com a corrida ao ouro, mas quando o ouro aca­bou e o caminho?de?ferro não passou por aqui, morreu, pura e sim­plesmente. Agora, o deserto está a levá?la.

O tom dele era significativo, mas Jade não percebeu o que o rapaz tentava transmitir.

? Parece calmo ? disse Rowan por delicadeza, do banco de trás.

Vic resfolegou.

? Pois, bem, eu não me referia exactamente à calma. Referia?me a esta estrada. Estas casas de quinta ficam a quilómetros de distância umas das outras, não é? Se vocês gritassem, ninguém vos ouviria.

Jade piscou os olhos. Que comentário tão estranho.

Rowan, sempre delicada a fazer conversa, disse:

? Bem, você e o Todd ouviriam.

? Mais ninguém, quero eu dizer ? disse Vic, e Jade detectou a impaciência dele. Conduzia cada vez mais devagar. Nesse momento, encostou o carro à berma e parou. Estacionou.

? Ninguém ouvirá seja o que for lá fora ? esclareceu ele, virando?se para o banco traseiro. Jade também olhou e viu Todd a sorrir, um sorriso rasgado, com o palito preso nos dentes.

? Exactamente ? disse Todd. ? Vocês estão aqui sozinhas con­nosco, portanto talvez seja melhor darem?nos ouvidos, hem?

Jade viu que ele agarrava no braço de Rowan com uma das mãos e no pulso de Kestrel com a outra.

Rowan manteve a expressão polida e confusa, mas Kestrel dei­tou um olhar significativo à porta do carro do seu lado. Jade per­cebeu o que ela procurava ? um puxador. Mas não havia.

? Que pena ? disse Vic. ? Este carro é mesmo um monte de sucata; as portas traseiras nem sequer se podem abrir por dentro.

Agarrou no braço de Jade com tanta força que ela sentiu a pres­são no osso.

? Agora, meninas, sejam simpáticas e ninguém se magoará.

 

Uma semana de arrepiar para todos!


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