Fevereiro 19, 2010

1º capítulo A Cidade das Cinzas




Olá, tremendos demónios das profundezas


Aqui o têm, para vosso deleite, o primeiro capítulo de A Cidade das Cinzas, segundo volume da série Caçadores de Sombras, de Cassandra Clare. Os que não tiveram ainda a curiosidade frenética de ler a sinopse, aqui podem encontrá-la.


Ficamos a aguardar as vossas primeiras impressões, de mandíbulas postas nesse futuro tão próximo que é dia 27 de FEVEREIRO, a data de saída de A Cidade das Cinzas.


CAPÍTULO UM – A CIDADE DAS CINZAS


A formidável estrutura de aço e vidro elevava?se na Rua Front como uma agulha cintilante atravessando o céu. A Metrópole, a nova e mais cara torre de condomínios da «baixa» de Manhattan, tinha cinquenta e sete andares. O apartamento mais luxuoso de todos encontrava?se no último andar, o quinquagésimo sétimo: uma resplandecente obra?prima de design a preto e branco. Ainda demasiado novo para ter acumulado poeira, o seu chão de mármore nu reflectia as estrelas visíveis através das enormes janelas que ocupavam toda a parede. O vidro era perfeitamente translúcido, propor­cionando a total ilusão de nada haver entre o espectador e a vista, o que, segundo se dizia, provocava vertigens até mesmo àqueles que não tinham medo das alturas.

Lá muito em baixo serpenteava o fio prateado do East River sob pontes metálicas e salpicado por barcos pequenos como insectos, dividindo as margens iluminadas de Manhattan e Brooklyn em ambos os lados. Numa noite clara, avistava?se a estátua da Liberdade a sul ? mas, esta noite, havia nevoeiro e a ilha estava oculta por detrás de um manto branco de bruma.

Apesar de a vista ser espectacular, o homem de pé em frente da janela não parecia particularmente impressionado. Ao afastar?se da janela e atra­vessar a sala, batendo com os tacões das botas no chão de mármore, o seu rosto magro de feições ascéticas tinha uma expressão preocupada.

? Ainda não está pronto? ? inquiriu, passando a mão pelo cabelo grisa­lho. ? Há quase uma hora que estamos aqui.

O rapaz ajoelhado no chão olhou para ele com ar nervoso e petulante.

? É por causa do mármore. É mais duro do que julguei. Torna difícil desenhar o pentagrama.

? Então não faças o pentagrama.

Mais perto, notava?se que, apesar do cabelo branco, o homem não era velho. O seu rosto duro era severo, mas não tinha rugas, e os olhos eram calmos e claros.

O rapaz engoliu em seco e as asas pretas membranosas que lhe saíam dos ombros estreitos (tinha cortado fendas nas costas do blusão de ganga para as acomodar) bateram nervosamente.

? O pentagrama é imprescindível em qualquer ritual para evocar demó­nios. O senhor sabe bem isso. Sem ele?

? Sei que não estamos protegidos, jovem Elias. Mas continua lá o teu trabalho. Conheci feiticeiros que podiam evocar um demónio, tagarelar com ele e despachá?lo de volta ao inferno em menos tempo do que tu demoras a desenhar metade de uma estrela com cinco pontas.

O rapaz não retorquiu, limitando?se a talhar novamente o mármore, desta vez com redobrado afã. O suor escorria?lhe da testa e ele puxou o cabelo para trás com uma das mãos cujos dedos estavam ligados por membranas tão delicadas como teias de aranha.

? Pronto ? acabou por dizer, sentando?se, ofegante, nos calcanhares. ? Está pronto.

? Excelente. ? O homem parecia satisfeito. ? Vamos começar.

? O meu dinheiro?

? Já te disse. Hás?de receber o teu dinheiro depois de eu falar com Agra­mon. Não antes.

Elias pôs?se de pé e tirou o blusão. Apesar das fendas que tinha aberto, ainda lhe comprimia desconfortavelmente as asas; libertas, abriram?se e expandiram, levantando uma brisa na sala sem ventilação. As asas eram luzi­dias e escorregadias: pontilhadas a preto e com um arco?íris de cores eston­teantes. O homem desviou o olhar, como se aquelas asas lhe desagradassem, mas Elias pareceu não reparar. Começou a andar à volta do pentagrama que tinha desenhado em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio e a cantar numa linguagem demoníaca que soava como o crepitar de chamas.

Emitindo o som de um pneu a esvaziar, o contorno do pentagrama incendiou?se bruscamente. As doze enormes janelas reflectiram doze estre­las de cinco pontas a arder.

Uma sombra negra sem forma movia?se no interior do pentagrama. Elias cantava agora mais depressa, traçando com os dedos delicadas formas no ar. Por onde os seus dedos passavam, surgiam labaredas azuis. O homem não sabia falar ctono, a linguagem das divindades infernais, mas reconhecia suficientes palavras para entender o canto de Elias: Agramon, intimo?te a sair do espaço entre os mundos, conjuro-te.

O homem levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram um objecto duro, frio e metálico. Sorriu.

Elias permanecia agora imóvel diante do pentagrama, a sua voz subindo e descendo de tom num canto repetitivo, as labaredas azuis a crepitar à volta dele como relâmpagos. De repente, uma espiral de fumo negro ergueu?se no interior do pentagrama, girando, alastrando e tomando uma forma cada vez mais sólida. Dois olhos surgiram na sombra como jóias suspensas numa teia de aranha.

? Quem me chamou do outro lado dos mundos? ? perguntou Agramon numa voz que soava como vidro a estilhaçar. ? Quem me convoca aqui?

Elias tinha deixado de cantar e encontrava?se em frente do pentagrama sem se mexer ? apenas as suas asas se agitavam lentamente no ar tresan­dando a corrosão e queimado.

? Agramon ? disse ele. ? Sou o feiticeiro Elias e quem te chamou fui eu.

Houve um breve silêncio e, depois, caso possa dizer?se que o fumo ri, o demónio soltou uma gargalhada. Uma gargalhada tão cáustica como ácido.

? Feiticeiro insensato ? silvou Agramon. ? Rapaz insensato.

? Se achas que podes ameaçar?me, tu é que estás a ser insensato ? disse Elias, mas a voz tremia?lhe como as suas asas. ? Ficarás preso nesse penta­grama até eu te soltar, Agramon.

? Achas que sim?

O fumo avançou, dissolvendo?se e tornando a formar?se. Uma espiral tomou a forma de mão humana e aproximou?se da beira do pentagrama a arder, galgando?a como uma onda a inundar um dique. As chamas vacila­ram e apagaram?se enquanto Elias, aos gritos, recuava aos tropeções. Entoava novamente um canto em atabalhoada linguagem ctona, fórmulas mágicas para conter o demónio, mas nada resultava e a massa de fumo negro continuava inexoravelmente a avançar, começando agora a tomar forma ? um enorme vulto disforme e horrendo, de olhos cintilantes a aumentar de tamanho e a irradiar uma luz mortífera.

O homem observava aquele espectáculo com interesse impassível. Elias tornou a gritar e virou?se para fugir, mas não conseguiu chegar à porta porque Agramon caiu?lhe em cima como uma vaga de alcatrão a escaldar. Por uns instantes Elias debateu?se debilmente e, depois, ficou inerte.

A forma negra retirou?se, deixando o feiticeiro caído no chão de már­more.

? Espero que não lhe tenhas feito nada que o torne inútil para mim ? disse o homem que, entretanto, tinha tirado o objecto de metal frio do bolso e brincava negligentemente com ele. ? Preciso do seu sangue, estás a perceber?

Agramon virou?se, uma coluna escura com olhos de diamante letais que examinaram o homem elegantemente vestido de rosto magro e impávido, as Marcas negras que lhe cobriam a pele e o brilhante objecto na mão.

? Pagaste ao miúdo feiticeiro para me convocar e não lhe disseste o que eu sou capaz de fazer?

? A tua suposição é correcta ? concordou o homem.

Agramon falou com admiração reticente.

? Foi inteligente da tua parte.

O homem aproximou?se do demónio.

? Sou muito inteligente. E, agora, também sou o teu mestre. A Taça Mor­tal está em meu poder. Tens de me obedecer ou encarar as consequências.

O demónio permaneceu silencioso por uns momentos e, depois, escor­reu no chão em obediência trocista ? o que, para uma criatura sem corpo, era o que mais se parecia com ajoelhar?se.

? Estou ao teu serviço, meu Senhor??

A frase terminou delicadamente numa interrogação.

O homem sorriu.

? Podes chamar?me Valentine.



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