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Fevereiro 3, 2014

Juliet Marillier em entrevista: «a tecnologia pode levar-nos a esquecer as relações pessoais»

Aquando da sua passagem por Lisboa, para o lançamento de O Voo do Corvo, Juliet Marillier deu uma entrevista ao Diário Digital. Aqui ficam as suas respostas e um pouco da sua vida, gostos pessoais e rotina de escrita.

Juliet Marillier, autora da série best-seller «Shadowfell», acaba de publicar, através da editora Planeta, o segundo volume da trilogia, «O Voo do Corvo». Em entrevista ao Diário Digital, a escritora neozelandesa de 66 anos, actualmente a viver na Austrália, revelou que é membro de uma ordem druídica, quais os valores que regem a sua vida e o que perspectiva sobre o futuro da Humanidade.

Em «O Voo do Corvo», Juliet Marillier recupera a protagonista do primeiro livro. Depois de concluir a sua longa e árdua viagem até à base dos Rebeldes em Shadowfell, Neryn tornou-se uma parte vital da rebelião contra o tirânico rei Keldec. Cada passo que dá no sentido de aperfeiçoar os seus dons e afirmar-se como uma Voz poderosa e única na sua geração leva-os mais perto da meta pretendida. Mas, primeiro, Neryn terá de procurar os Guardiões das quatro Vigias para completar o seu treino e o tempo escasseia.

Acredita nos signos do zodíaco? É Leão, revê-se nas características do signo?

Acredito e não acredito. A verdade é que gosto de ler o meu signo. No entanto, não me revejo nas suas características; não sou vaidosa nem tampouco egocêntrica. Acho que sou uma mistura de signos. Em tempos, porém, pedi que me fizessem uma carta astral e fiquei atónita, acertou em cheio.

É uma pessoa espiritual?

Sem dúvida. Descobri o druidismo tardiamente ao fazer pesquisa para um livro. Apercebi-me que havia druidas modernos e identifiquei-me com eles. Fui criada como cristã mas os druidas são mais dedicados à mitologia, à conservação da Natureza. Reflectem muito sobre o nosso papel no Planeta.

Começou a escrever tarde, em 2002…

Não comecei a escrever tarde. Comecei a publicar tardiamente! Escrevia muito na escola, aliás, comecei com 18 anos, mas depois decidi estudar música e acabei por dar aulas. Foi nessa altura que parei de escrever. Percebi que precisava de tornar-me mais madura para escrever ficção.

E porquê a opção deste género literário, o romance fantástico?
Não foi consciente. Acabou por resultar do amor que tenho pelo folclore, mitologia e pelos contos de fadas, este tipo de histórias, relacionadas com o fantástico. Sempre li contos tradicionais. O género literário acabou por crescer do meu interesse pessoal.

E como é que é a sua rotina de escrita, o processo?

Actualmente, publico à razão de um livro por ano. Gosto de planear, faço pesquisa dos locais, da sua história, mas esta última série «Shadowfell» é passada num sítio imaginário e mágico, numa Escócia que não existe. Há que contextualizar que, a viver na Austrália, tudo é diferente, o tempo, as plantas, e é por isso que para ser precisa tenho que fazer muita pesquisa. Uma vez idealizado o livro, depois planeio-o, a sua estrutura, e só então é que começo a escrever. Mas não de uma assentada só. Gosto de escrever por partes, devagarinho, ir revendo o que já escrevi. É assim o meu processo de escrita. Mas também há flexibilidade, nem sempre é assim. E hoje em dia escrevo mais à tarde. É que tenho cinco cães, todos eles foram abandonados, e ocupam-me muito tempo. E ainda bem. É que além da companhia que fazem também ajudam a fazer exercício.

«Shadowfell», a segunda trilogia (a primeira foi «Sevenwaters»), consta que foi influenciada pela Primavera Árabe, como assim?

Queria escrever sobre a dificuldade de fazer uma rebelião contra um regime opressor, a coragem que é necessário ter para travar uma batalha dessas. É que uma insurreição implica muita entrega pessoal. Defender uma causa provoca muitos estragos pessoais.

É imprescindível ler o primeiro volume para perceber o segundo?

É melhor que tenham lido o primeiro, embora tenha tido o cuidado de transpor muita informação para «O Voo do Corvo». Mas o melhor mesmo é ler a trilogia cumprindo a sua sequência.

Para aqueles que desconhecem Neryn, a protagonista, como é que a descreveria?

Neryn tinha 15 anos no início, no primeiro volume. Vive quase sozinha num mundo opressivo com um tirano a mandar. Ela tem um dom proibido por lei e que lhe permite falar com os Good Folk, mas tem que esconder esse precioso poder. Apercebe-se, contudo, que a sua dádiva será a chave para mudar o destino de Alban. Neyrn é muito corajosa mas tem que aprender a dominar o seu poder.

Identifica-se com algum dos personagens?

É pertinente a pergunta (risos). Em muitos dos meus livros há sempre uma mulher sábia, mais velha, e nela há um pouco de mim. Caberá ao leitor descobrir quem eu sou em «O Voo do Corvo». Para ajudar deixo algumas dicas: sou baixinha e corajosa. Bem, pelo menos gostaria de ser tão corajosa quanto essa personagem.

Nos seus livros aborda sempre os desafios que a Humanidade tem que enfrentar. Como é que vê o futuro da Humanidade?

Sou membro da ordem druídica OBOD (Order of Bards, Ovates & Druids) e tenho esperança no futuro da Humanidade, mas está a assistir-se a uma crise. Enfrentamos grandes catástrofes devido ao aquecimento global, à industrialização, temos governos incompetentes e que negligenciam o ambiente. Mas mais do que o futuro da Humanidade, esforço-me por tornar-me mais sensata, a mudança passa por cada um. Precisamos de ter esperança e assumir posições.

Amor, lealdade, esperança, coragem, honra…são valores importantes para si?
Há tempos disse que os maiores valores eram a coragem, a bondade e a sabedoria. E reitero. Dou como exemplo os contos de fadas, que transmitem valores sólidos, que ajudam as pessoas a não perderem a visão do que é importante. A tecnologia pode levar-nos a esquecermo-nos das relações pessoais.

Sei que gosta de cães, mas e os gatos?

Tenho cinco cães, mas gosto muito de gatos também. Mas não posso ter, infelizmente. Primeiro porque uma das minhas netas é alérgica, e depois porque não seria razoável submeter os cães à presença de gatos.

Uma coisa sobre si que pudesse surpreender um leitor?

Responder a isso é difícil. Tenho de pensar. Bem, não sei se irá surpreender os leitores, mas a verdade é que gosto muito de tricotar e fazer brinquedos em miniatura de lã, pequenos animais, para os meus netos.

O seu livro favorito?

«Women Who Run with the Wolves» da escritora e psicanalista analítica americana Clarissa Pinkola Estés. Adoro esse livro, volto a ele muitas vezes. Fala sobre as mulheres e a mitologia, tem histórias tradicionais e é uma discussão sobre o papel das mulheres na mitologia.

Se pudesse dar um conselho aos seus leitores?
Os mesmos valores que advogo. Que sejam corajosos, bondosos e sábios. É isso. Três conselhos.

E o terceiro volume da série, podia antecipar alguma coisa? Quando sai?

A edição australiana do terceiro volume da trilogia, «The Caller», sai em Janeiro de 2014; a americana em Julho de 2014. Os leitores que quiserem lê-lo em inglês já sabem agora as datas. O último livro da saga conclui a história de «Shadowfell». Pouco mais posso avançar, a não ser que é recomendado para todas as idades, mas especialmente para um público mais adulto, porque a história vai tornar-se cada vez mais séria, mais obscura.

Projectos, já está a trabalhar em novo material?

Já. Numa nova série que se irá chamar «Blackthorn and Grim», são dois personagens. Posso adiantar que é uma história ainda mais densa do que as anteriores e que irá conter elementos misteriosos. Serão, no mínimo, três livros. A protagonista vai ser executada, mas até lá ser-lhe-ão concedidos sete anos de vida se fizer uma série de coisas que não gosta. Por isso, inicialmente, até tinha pensado em lançar sete livros, um por ano, mas acho que não vai ser possível.

Por fim, um desejo?

(pausa) Tenho que pensar. Bem, espero que os leitores continuem a encontrar bons livros e que continuem a gostar de ler. Não falo dos meus, falo no geral.

 

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